Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Datas perdidas

 

Alexandre Herculano nasceu a 28 de Março de 1810, faz hoje 198 anos. Apesar de a sua obra de historiador e de romancista ser hoje a mais conhecida do público, Alexandre Herculano escreveu alguns dos poemas que, na poesia portuguesa, mais se identificam com a estética do romantismo, como se pode verificar em «A Tempestade», do livro A Harpa do Crente, publicado aos 28 anos.

A TEMPESTADE

Sibila o vento: os torreões de nuvens
Pesam nos densos ares:
Ruge ao largo a procela, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A imensa vaga ao longe vem correndo
Em seu terror envolta;
E, dentre as sombras, rápidas centelhas
A tempestade solta.
Do sol no ocaso um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa à nuvem, que, apressada e espessa,
Para apagá-lo corre.
Tal nos afaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciência
Dizer que ela mentia!

As ondas negro-azuis se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quais outras serras, que se arqueiam,
Bater, partir-se vão.
Ó tempestade! Eu te saúdo, ó nume
Da natureza açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa,
E é teu vestido a noite!
Quando pelos pinhais, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
E assolação derramas,
Quem porfiar contigo, então, ousara
De glória e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castelos,
E ver dos ferros meus, enfim, quebrados
Os rebatidos elos.
Eu rodeara, então o globo inteiro;
Eu sublevara as águas;
Eu dos vulcões com raios acendera
Amortecidas fráguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
Acurvaria as frontes;
Com furacões, os areais da Líbia
Converteria em montes;
Pelo fulgor da Lua, lá do norte
No pólo me assentara,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoara.
Ali, eu solitário, eu rei da morte,
Erguera meu clamor,
E dissera: «Sou livre, e tenho império;
Aqui, sou eu senhor!»

Quem se pudera erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
Nos líquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!...
Ergue-se em vão aos céus: precipitada,
Rápido, em baixo dá.

Ó morte, amiga morte! é sobre as vagas,
Entre escarcéus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a natureza
Lançou a esta alma ardente;
Que ela possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufões ludíbrio,
Solta, sem rumo vague!

Porém, não!... Dormir deixa os que me cercam
O sono do existir;
Deixa-os, vãos sonhadores de esperanças
Nas trevas do porvir.
Doce mãe do repouso, extremo abrigo
De um coração opresso,
Que ao ligeiro prazer, à dor cansada
Negas no seio acesso,
Não despertes, oh não! os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorido leito!
Tu, que ao mísero ris com rir tão meigo,
Caluniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás asilo
Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas às portas dos senhores,
Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delírios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu que velo na vida, e já não sonho
Nem glória nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até às fezes,
O cálix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto há vil no mundo,
Santas inspirações morrer sentindo
Do coração no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
Fragor da tempestade,
Salmo de mortos, que retumba ao longe,
Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, envolto em maldições celestes,
No abismo tormentoso?
Nunca! Deus pôs-se aqui para apurar-me
Nas lágrimas da terra;
Guardarei minha estância atribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu prémio,
O seu repouso, enfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro após mim.
Herdarei o morrer! Como é suave
Bênção de pai querido.
Será o despertar, ver meu cadáver,
Ver o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trevas da existência,
Doce amizade e amor.
Tudo o mais é sepulcro branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba à pátria do repouso,
Onde não há morrer.

publicado por annualia às 11:43
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Garrett nasceu há 209 anos

Almeida Garrett

Porto, 4.2.1799 - Lisboa, 9.12.1854.

 

 

Requiem pela casa de Garrett *

Na crónica deste ano de 2006* ficará registado um acontecimento que, sem a repercussão de outros de maior imediatismo e preponderância na vida nacional, é deveras emblemático do nosso já antigo desleixo cívico e cultural, se não for mesmo sintoma de doença mais grave. Falo da demolição da casa em que morreu o poeta, dramaturgo, romancista, ensaísta, e figura preponderante da vida portuguesa da primeira metade do século XIX, Almeida Garrett.
Nascido no Porto, Garrett veio para Lisboa com dez anos de idade, iniciando assim um itinerário de certo nomadismo, que passa pelos Açores, pelos exílios, pelas funções desempenhadas no exterior, mas também pela inconstância da residência. Não diz ele nas Viagens na Minha Terra «De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo num lugar, e não posso sair dele sem pena?» Esta mesma frase usou Henrique de Campos Ferreira Lima, estudioso que devotou muito do seu esforço à investigação da biografia garrettiana, num artigo da revisa Olisipo (Outubro de 1939) dedicado precisamente ao levantamento das casas onde o poeta residiu, por períodos de duração variável, em Lisboa. E foram muitas.
Apesar disso, aquela última casa da antiga Rua de Santa Isabel, actual Rua Saraiva de Carvalho, adquiriu uma importância particular. «Foi com esta casa, supondo que, talvez, seria aquela onde, por mais tempo, se fixaria até à sua última morada, que o poeta teve maiores preocupações», afirma Ferreira Lima no artigo já citado. Garrett escolheu-a, mandou arranjá-la, cuidou de a mobilar e decorar com extremos cuidados antes de ir habitá-la com sua filha. Gomes de Amorim descreve minuciosamente a casa pronta nas suas Memórias Biographicas de Garrett, que constituem a principal fonte de informação de Ferreira Lima, mas também de José Osório de Oliveira em O Romance de Garrett e de todos quantos se têm interessado pela biografia do poeta: a entrada, o jardim, no andar nobre a saleta, a livraria com as quatro estantes, a cadeira abacial, o quarto de paredes forradas de papel verde e festões de rosas. Esta era a casa ansiada, na qual Garrett entrou a 30 de Outubro de 1854 e onde, pouco mais de um mês depois, morrerá às 6 horas e 25 minutos do dia 9 de Dezembro.
O fiel Gomes de Amorim, que acompanhou a agonia do escritor, conta com repulsa e patético desgosto o abandono a que alguns dos seus próximos o votaram: «Eram outras, inteiramente outras as circunstâncias; porém não faltava muito para que a morte de Garrett fosse igual à de Camões. Graças a Deus, que tal não sucedeu. Semelhante opróbrio basta que se veja uma vez em mil anos, para deixar uma eterna mancha na face da nação que o consentiu».
Quando desapareceu, aos 55 anos, Garrett não era propriamente um desconhecido. Estivera presente nos momentos cruciais da vida política do seu tempo e nem a sua acção nem a sua figura tinham passado despercebidas. Culturalmente, deixou marcas indeléveis. Literariamente, nenhuma figura relevante posterior pôs em causa a sua importância ou rejeitou a sua herança. O Frei Luís de Sousa, as Folhas Caídas e As Viagens na Minha Terra ocupam um lugar inamovível na história do nosso teatro, da nossa poesia, da nossa narrativa, e são consistentes com o resto da sua obra, incluindo a recolha pioneira que o Romanceiro constitui.
Em todos os momentos da história do último século houve quem reivindicasse filiações garrettianas. Uns saudaram o nacionalista, outros celebraram o liberal, uns sublinharam mais o seu apego aos valores da pátria e o amor das raízes, outros o seu apego aos valores do povo e aos ideais democráticos, uns reviram-se mais no dandy, outros no político, mas a admiração literária foi sempre comum. E as suas circunstâncias humanas sempre foram comummente respeitadas.
A preservação da casa onde o escritor viveu os últimos dias da sua vida tinha o mais alto interesse simbólico, por representar o gesto intencional de vincular a sua figura ao lugar e à cidade, tornando mais palpável uma geografia pessoal capaz de nos restituir a sua presença.
O edifício apresentava um valor arquitectónico e histórico intrínseco, mas o facto de Garrett ali ter vivido dava-lhe uma particular representatividade, o facto de ali ter morrido envolvia-o numa aura. A gravura reproduzida nestas páginas
, publicada no Archivo Pittoresco, que iniciou a sua publicação em 1857, e a conhecida aguarela de Ribeiro Cristino quase constituem uma tradição iconográfica que, somada às tentativas que desde 1874 se fizeram para que o edifício fosse classificado, sublinham o facto de a casa imprimir carácter àquele lugar.
A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado.
As cidades renovam-se, transformam-se, acumulando no seu seio várias idades, sobrepondo referências urbanas, para o bem e para o mal. Mas a história urbana não se revela apenas nas casas, ruas e praças, mas também na gente que as habitou e percorreu, e nelas fez história.
Não existe entre nós, talvez, suficientemente enraizado, o instinto de preservar, nem o gosto de dar a ver o passado de um modo simultaneamente imobilizado e vivo, numa sequência de aprendizagem, abrindo caminhos a novas peregrinações, fixando na cidade novos pontos de referência que dêem mais espessura à sua história íntima. Ou talvez falte sobretudo amor à cultura, por não termos colectivamente interiorizado que ela é tudo o que somos, e nela se reflecte tudo o que não somos. Ou, então, teremos de acreditar que as palavras de Garrett continuam a fazer sentido, mais de século e meio depois: «Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espírito...»
*
Jorge Colaço
 *Artigo publicado no volume Annualia 2006-2007.
publicado por annualia às 11:12
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