Terça-feira, 28 de Julho de 2009

Painéis de Nuno Gonçalves

 
«Uma visita ao Paço Patriarcal de S. Vicente de Fora, empreendida no início da década de 1880 por um pequeno grupo de personalidades da cultura, proporcionou uma surpresa destinada a intrigar, deleitar e apaixonar a sociedade portuguesa. Num recanto do paço, se bem que mal articuladas e obscurecidas pela falta de conservação, algumas tábuas de pintura antiga cativaram de imediato a atenção dos visitantes. A impressão causada pelas dezenas de rostos pintados naquelas tábuas, entre os quais se reconhecia o do infante D. Henrique, foi indelével.

(...)

Críticos de arte, historiadores, heraldistas, homens de letras e pintores sentiram-se atraídos para a arena de um debate que foi tomando foros de questão nacional, cativando especialmente a atenção do público educado, na segunda metade da década de 1920, quando os "egos" exacerbados de alguns dos contendores levaram a variados episódios de cunho rocambolesco e mesmo trágico.

(...)

Entretanto, para além do mundo da erudição, o potencial de interesse da opinião pública no assunto mantém-se. Certamente, a individualidade dos retratados, aliada à mestria que é aparente em todo o conjunto pictórico, estão na origem do fascínio que os painéis exercem sobre nós.

Os portugueses dos mais variados graus de instrução sentem intuitivamente a grandeza desta pintura e reconhecem, emocionados e intrigados, nas personagens representadas os rostos graves dos seus antepassados que os contemplam no silêncio de um tempo que já passou há mais de cinco séculos.»

 

Jorge Filipe de Almeida

Maria Manuela Barroso de Albuquerque,
Os Painéis de Nuno Gonçalves,
Editorial Verbo, Lisboa 2003 (2ª edição aumentada) 

 

Este livro sobre os Painéis de Nuno Gonçalves apresenta, na defesa da tese «fernandina», interessantíssimas soluções claramente seduzidas pela ideia de explicação «total», risco sério. Mas parte da sua plausibilidade assenta na razão pela qual teria entrado tão extraordinária pintura — uma das obras maiores da pintura europeia quatrocentista —, no negro buraco do tempo: inconveniência política. Depois do episódio infeliz de Alfarrobeira, D. Afonso V — o jovem do Painel do Infante — ou algum pressuroso e anónimo apaniguado por ele, não terá podido suportar a exposição pública da representação do regente D. Pedro (segundo o autor, a figura da esquerda, em primeiro plano, no Painel do Arcebispo) e terá remetido os painéis para a sombra esconsa do esquecimento. É, sem dúvida, uma funda tradição nacional. Jorge Colaço

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Os enigmas dos Painéis: interpretação, interrogações e novos dados

 

 

«A diversidade das interpretações dos Painéis decorrem das diferentes identidades atribuídas à figura representada nos dois painéis centrais. A primeira identificação, desde o início sustentada por José de Figueiredo e secundada entre outros por Reinaldo dos Santos, foi com o mártir S. Vicente, padroeiro de Lisboa. Assentava ela, sobretudo, no culto prestado ao santo e no facto de a figura estar representada de dalmática, veste própria da dignidade eclesiástica (diácono) de S. Vicente. Esta filiação interpretativa terá larga fortuna durante o século xx, tendo sido seguida por muitos historiadores nacionais e estrangeiros. Mas não faltou quem a contestasse. Alfredo Leal fê-lo logo em 1917, propondo uma leitura que identificava a figura central com Sta. Catarina, padroeira de D. Afonso V. Em 1925 surgiria outra tese, de José Saraiva, que defendeu a identificação com D. Fernando, o Infante Santo.

Inicialmente dispostos como dois trípticos, foi só depois de 1926 que a sua disposição actual foi estabelecida (embora só exibida em 1940) por Almada Negreiros e José de Bragança, com base na observação da perspectiva dos ladrilhos do chão representado na pintura.

Outras teses surgiriam ainda, como a de Belard da Fonseca que pretendeu ver na enigmática figura o Cardeal D. Jaime, sepultado na basílica florentina de S. Miniato, para onde se destinariam os painéis. Foram, porém, as teses vicentina e fernandina que mais distintamente emergiram das diversas análises e da polémica que se instaurou.

(…)

Depois de anos de relativa acalmia da veemência discordante, que não diminuíram o interesse pelos Painéis, unanimemente reconhecidos como uma das obras maiores da pintura europeia quatrocentista, surgiu no ano 2000 uma novo estudo favorável à hipótese fernandina. Jorge Filipe de Almeida não só identifica a figura central dos Painéis com o Infante Santo (justificando o uso da dalmática com uma «vontade de dignificação»), como interpreta, com larga argumentação, todo o conjunto como uma representação simbólica das suas exéquias, nelas comparecendo a «Ínclita Geração». Neste contexto, não é desprezível a observação do esquife vazio do Painel da Relíquia (o mais à direita), onde também é exibido o escalpe de Sto. António, que o infante D. Pedro — regente do Reino e, segundo o mesmo autor, a figura da esquerda, em primeiro plano, do Painel do Arcebispo, na diagonal do jovem D. Afonso V, no Painel do Infante — teria oferecido à Confraria do Bem Aventurado Santo Antoninho a cuja casa se teriam destinado os Painéis e onde também funcionava o Senado da Câmara».

Excertos da entrada «Questão dos Painéis» na Enciclopédia Verbo-Edição Século XXI, vol. 24, Lx., Setembro de 2002.

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