Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

100 anos: parabéns Manoel de Oliveira

 

Manoel de Oliveira ou O Cinema Virtual

José de Matos-Cruz

Investigador e crítico cinematográfico

 

Um estranho efeito repercutiu o fenómeno de Manoel de Oliveira, consagrado em todo o Mundo, sobretudo a partir da última década do século passado: as suas referências pessoais e culturais converteram-se numa espécie de parâmetro confluente ao próprio cinema português. Desde finais dos anos ’20, Oliveira ousara um percurso estético, temático e artístico com a sua carreira, exemplar e excepcional. Assim sobressaem o rosto e o vulto de um homem complexo, intenso, cuja matriz de criador se delimita entre a sensibilidade e a veterania, através olhares, intuições, deixando transparecer uma sublimação ritual de ironia e serenidade.
Nascido no Porto, em 11 de Dezembro de 1908, numa família da alta burguesia industrial, Oliveira sonhou ser actor cómico. Logo interessado pelo cinema, e presente no imaginário nacional desde finais da década de ‘20 — quando se afirma a primeira geração de realizadores nossos, e as fitas passam a ser faladas — assinalaria como autor um peculiar itinerário temático, criativo, libelatório, estético e estilístico. Académico, fulgurante, pedagógico. Insólito, insinuante, ao patentear uma extraordinária capacidade com que capta tendências, impressões. Modelando-as de modo subtil, com lucidez e talento, ao seu mundo interior de expectativas, valores, inquietações.
O impedimento, a exclusão ou a indiferença oficial quase chegaram a afastar Oliveira da actividade a que dedicaria a sua vida. Até lhe ser permitido desenvolvê-la de um modo que, incomparável desde sempre em Portugal, poucos exemplos semelhantes tem noutros países: um filme dirigido em cada doze meses, sendo também argumentista; todos estreados por cá, com sucesso e prestígio em festivais lá fora. Muito se vem questionando sobre o que o faz correr, e onde vai buscar tanto dinamismo. Ele-próprio adiantou respostas, não isentas de sarcasmo e simbolismo: «As árvores, à medida que envelhecem, dão mais frutos!»

Não esqueçamos que Oliveira foi um distinto atleta na sua adolescência, e que uma aprendizagem árdua lhe impôs a maturidade de uma carreira de fundo. Porventura — entre os estímulos da iconografia e os signos da lenda — superando-se por não ter, apenas, uma meta específica! A partir dos anos 70, acumularam-se os galardões e os louvores, tal como se reacenderam polémicas — sobre um percurso que remontando, pois, às origens do cinematógrafo, se perspectivaria na vanguarda dos audiovisuais. «Na minha cabeça há um turbilhão de ideias, de projectos. Mesmo que me proporcionem facilidades, a minha vida não será suficiente para concretizar tudo isso»...

Virtualizando um repositório actual de angústias, emoções, que é, simultaneamente, de compromisso e premonitório, Manoel de Oliveira traça, afinal, os estigmas do seu próprio imaginário — puro e tremendo, inocente ou monstruoso, poético e solene, insolente ou expiatório, em que o tributo ancestral acaba por transfigurar, além do testemunho sobre as adversidades, as marcas cintilantes quanto ao futuro. «Tudo é memória, tudo resta na memória. E a memória da vida é a arte, que existe como representação. Todos somos actores e espectadores — estamos isolados mas, ao mesmo tempo, em sociedade». Eis um artista exposto, na plenitude do génio e da perplexidade.

Através dos filmes

Manoel de Oliveira foi desde muito novo motivado pelo cinema, imaginando ou passando para papel a découpage dos filmes. Com vinte anos, delineou «9 de Abril» (com Alberto de Serpa), e inscreveu-se na Escola de Actores de Cinema, fundada no Porto por Rino Lupo, aparecendo — com o irmão Casimiro — num filme deste realizador, como figurante: «Fátima Milagrosa» (1928); sob o pseudónimo de Rudy Oliver, participou no concurso «Uma Estrela e um Astro da Arte Cinematográfica», que Lupo organizara na revista Arte Muda. Em 1929, concebeu histórias para desenhos animados, a executar com Ventura Porfírio e San-Payo.

Por 1930, adquirida uma máquina Kinamo, Oliveira filmava já com António Mendes — um guarda-livros que gostava de fotografar — Douro, Faina Fluvial; estreado na versão muda em Setembro de 1931, no V Congresso Internacional da Crítica, provocou contrastadas reacções entre os portugueses e um aplauso consensual dos estrangeiros. Em 1933, foi actor, agora destacadamente, em A Canção de Lisboa de Cottinelli Telmo. No ano seguinte, estreou a versão sonora de Douro, que passou a correr mundo, firmando o seu prestígio.

Em 1940, Oliveira rodou Famalicão. Dois anos depois, foi lançado Aniki-Bobó, com produção de António Lopes Ribeiro. Em 1955, deslocou-se à Alemanha — Leverkussen, estágio nos laboratórios Agfa - para estudar a cor aplicada ao cinema, daí surgindo O Pintor e a Cidade (1956). Em 1959, dirigiu O Pão, com versão curta em 1964. Em 1962, concretizou O Acto da Primavera, segundo Francisco Vaz Guimarães. A Caça (1963) perpetuou uma obra-prima ficcional — em curta metragem, como o documentário As Pinturas do Meu Irmão Júlio (1965) com o velho amigo José Régio, sobre Júlio dos Reis Pereira.

A partir de 1971, com O Passado e o Presente, segundo Vicente Sanches, Manoel de Oliveira contraiu uma actividade consequente. De 1974, é Benilde ou a Virgem-Mãe, transposição da peça de Régio. Em 1978, consumou Amor de Perdição, segundo Camilo Castelo Branco. De 1981, é Francisca, adaptando Fanny Owen de Agustina Bessa-Luís; e Oliveira fez uma intervenção em Conversa Acabada de João Botelho. Visita ou Memórias e Confissões (1982) permaneceria sigilado, como testemunho autobiográfico que apenas pretende revelado na posteridade.

Em 1983, retomou a via documental, com Lisboa Cultural e Nice A Propos de Jean Vigo. Sobre Paul Claudel, Le Soulier de Satin recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 1985, quando rodou em França O Meu Caso/Mon Cas (1986) e assinou Simpósio Internacional de Escultura em Pedra, com o filho Manuel Casimiro. Em 1988, Os Canibais foi apresentado na Selecção Oficial do Festival de Cannes. Em 1990, no mesmo certame, Non ou a Vã Glória de Mandar foi exibido Extra-Concurso na Selecção Oficial, e Oliveira recebeu uma Menção Especial do Júri.

Em 1991, revelou A Divina Comédia, Grande Prémio Especial do Júri em Veneza. Evocou Camilo em O Dia do Desespero (1992), e deslumbrou com Vale Abraão (1993) segundo Agustina. Paulo Rocha dedicou-lhe Oliveira, o Arquitecto (1993). Em Lisboa, centrou A Caixa (1994) a partir de Prista Monteiro. Em 1994, surpreendeu na Viagem a Lisboa/Lisbon Story de Wim Wenders. Dirigiu Catherine Deneuve e John Malkovich em O Convento (1995). Evocando a modernidade da sua obra-prima, voltou a Douro, Faina Fluvial, com outro contraponto musical.

Em 1996, Oliveira acolheu Irene Papas e Michel Piccoli em Party. Depois, aflorou a sua própria veterania em Viagem ao Princípio do Mundo (1997) com Marcello Mastroianni, e ironizou a Inquietude (1998, sobre histórias Helder Prista Monteiro, António Patrício e Agustina) com Papas; a filha de Mastroianni e Deneuve, Chiara Mastroianni contracenou com Pedro Abrunhosa em A Carta (1998), pela inspiração romântica de La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette.

Em 2000, Oliveira testemunhou a vida e a obra do Padre António Vieira, entre Palavra e Utopia com Luís Miguel Cintra e Lima Duarte - Prémio da Crítica no Festival de São Paulo. Em 2001, voltou a convocar Piccoli, Deneuve e Malkovich, estigmatizando as máscaras dum velho actor em Je Rentre à la Maison/Vou Para Casa; e evocou o Porto da Minha Infância, assumindo o neto Ricardo Trêpa entre a nostalgia e a reconstituição — Prémio Cict/UNESCO, em Veneza.

Em 2002, Manoel de Oliveira fixou O Princípio da Incerteza, sobre Jóia de Família de Agustina Bessa-Luís. Seguiu-se Um Filme Falado (2003) com Deneuve, Papas, Malkovich e Leonor Silveira. Em 2004, perspectivou O Quinto Império - Ontem Como Hoje, evocando El-Rei Sebastião de José Régio, e que proporcionou um Leão de Ouro à Carreira no Festival de Veneza. Já em 2005, Oliveira reflecte A Alma dos Ricos de Agustina, em O Espelho Mágico. Eis os desafios do cinema…

Homenagens & Honrarias

Ao longo da carreira de Manoel de Oliveira, sucederam-se as homenagens, os preitos e as honrarias, culminando um prestígio mundial. Eis alguns dos mais significativos galardões que lhe foram atribuídos: Homenagem Nacional (1963); Prémio Especial à Carreira – Figueira da Foz (1979); Membro de Honra da Academia Nacional de Belas-Artes, Medalha de Ouro CIDALC (1980); Distinção Especial das Igrejas Protestantes – Berlim, Medalha de Ouro de Sorrento, Realizador do Ano/Viennale (1981); Comenda da Ordem de Mérito da República Italiana, Prémio Vittorio de Sica (1982); Comenda da Ordem de Artes e Letras - França (1983); Leão de Ouro/Veneza, Prémio Numero Uno/Rimini (1985); Taça Gala do Cinema (1986); Presidente de Honra da Cultura Latina/União Latina (1988); Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, Doutor Honoris Causa da Faculdade de Arquitectura – Porto (1989); Leopardo de Honra/Locarno (1992); Prémio à Melhor Contribuição Artística/Tóquio, Se7e de Ouro/Prestígio (1993); Prémio Kurosawa/São Francisco, David de Donatello/Prémio Luchino Visconti, Classe de Mestre/Hong-Kong (1994); Homenagem Nacional, Prémio Consagração de Carreira/Sociedade Portuguesa de Autores, Um Homem do Norte, Prémio Bordalo/Casa da Imprensa – Cinema (1995); Troféu Estudos Fílmicos/Universidade de Coimbra, Medalha de Mérito Cultural - Porto (1996); Homenagem do Júri Ecuménico/Cannes, Prémio Especial à Carreira/Salónica, Grande Oficial de Mérito Nacional pela República e pelo Governo Francês (1997); Prémio Obra de Uma Vida – Jerusalém/Israel, Prémio Casa de Camilo Castelo Branco, Prémio Ennio Flaiano/Pescara, Grande Prémio das Américas/Montréal, Manoel de Oliveira – 90 Anos/Homenagem Nacional, Troféu Nova Gente – Personalidade do Ano (1998); A Tribute To Manoel de Oliveira – Harvard/Yale (2000); Prémio Bresson – Veneza/Vaticano, Grande Medalha de Vermeil – Câmara de Paris, Comenda da Légion d’Honneur – França (2001); Reconhecimento da República Italiana, Doutor Honoris Causa – Universidade Nova de Lisboa, Personalidade do Ano – Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal/AIEP, Prémio Latinidade/União Latina, FIAF Preservation Award, Prémio Mundial das Artes Valldigna – Valencia/Espanha (2002); Carrefour des Littératures – Bordéus, Prémio Melhor Trajectória Artística de um Autor Ibero-Americano – Extremadura/Espanha, Relógio SWATCH, Comandante da Ordem dos Ouissem Alouite – Marrocos (2003); Grã-Cruz da Ordem de Mérito da República Italiana – Roma, Presidente de Honra/Festival Black & White/Porto, Prémio Negroamaro/Carreira – Salento/Itália, Prémio Mediterraneo/Carreira – Grado/Trieste, Leão de Ouro à Carreira/Veneza, Prémio Cineuropa – Galiza; Homenagem Humanidade – São Paulo; Rã de Ouro – CareImage/Lodz (2004).

[Manoel de Oliveira foi distinguido, em Maio de 2008, com a Palma de Ouro para a Carreira do Festival de Cannes, que lhe foi entregue por um dos seus actores favoritos: Michel Piccoli.]
[Texto publicado em Annualia 2005-2006]

 

 

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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Manoel de Oliveira recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cannes pelo conjunto da sua obra

 

© AFP

 

No ano em que celebra o seu 100.º aniversário, Manoel de Oliveira foi distinguido com a Palma de Ouro para a Carreira do Festival de Cannes, que lhe foi entregue por um dos seus actores favoritos: Michel Piccoli.

 

Após a exibição da sua curta-metragem, A Day in the Life of Manoel de Oliveira, Gilles Jacob leu uma carta pessoaç, agradecendo e elogiando o cineasta pela sua contribuição para a Sétima Arte:


"Dear Manoel,
There's a story about you I just love. Supposedly, you said, "I've been lying about my age. I'm not one hundred years old; I'm three years older than that." If it's true, I say, hats off to you; if it's not true, it's even more delightful. In any case, it augurs well for this portrait of the artist as a young man. The world's great directors cringe before the deluge of interpretations that the exegetes rain down upon their oeuvre You, my dear friend, will not contradict me, I'm sure. Having begun making films before the advent of sound, you know the sweet price of silence. And you are also, in a way, the last of the pioneers. Indeed, the œuvre of the great cineastes is marked by its openness: to the world, to space, to time, and to the person, as well, and therefore to tranquility... You structure each of your films in opposition to the preceding one, a little game that makes you the most playful of directors. You have no fear of placing yourself in danger and, yet, it never fails: like the high-jumper you once were, you sail over the obstacle, the bar doesn't fall, you succeed. A mystery of freshness and vitality, you amaze us; we are in awe of you, even. You are always unpredictable. Your films, swimming in magnificent light and splendid women, need no explanations. One of your titles sums them up perfectly: The Uncertainty Principle. Strange and sublime metamorphoses recur in your work;
changements à vue, as they say in theater, changes in plain sight. This change in plain sight is coming over your face now: your eyes are sparkling with enjoyment, vitality, and the youthfulness of your soul. The thing is, your legendary modesty shrinks from having people talk about either you or your work. Too bad, dear Manoel, let me say this, and for a second, I shall be a bit serious. Too bad if I vex you, you who are the quintessence of cinéma d'auteur, as all lovers of the style will agree. There are certain figures in the history of art, creators who, for a time, embody the soul of a people, are emblematic of an entire country. Such artists are a boon to their countrymen, a blessing for the land. From the 1950s to the 1970s, Italy suffered the fate of having fifteen geniuses in practice. Fine, but what then? In Spain, the opposite was true, and without going back to the great Cervantes in literature, the role was played by Buñuel, followed by Almodóvar. And that was fine. In Portugal, there was Pessoa, but then there is also you. Please excuse me. I'll cite one single example of the Oliveira Touch. It's in I'm Going Home, with the great Michel Piccoli. Remember, every morning, his character goes to the same Paris café, sits down at the same table, and orders a cup of coffee, which he drinks as he reads Le Figaro. Then he leaves. Almost as soon as he gets up, another customer comes in, rushes to the same table, and reads Libération. Another day, after Piccoli is gone, the Libération reader hurries in as usual, but the table is already taken by another regular, who is riveted to Le Monde. What is it about this enchanted table that attracts such a varied sample of the daily press? ...The only thing one can be certain of is that there's no explanation. That's just the way it is. But the very fact that we asked ourselves all these questions, and smiled, is a revelation of our whole universe, my dear Manoel, and, in this representation, of the entire history of humanity. As I remarked before, you've been making films for quite a while. For sheer taste, your work invents, foretells, and accompanies the panorama of the history of cinema. And it is on these highly symbolic grounds, but because you are you – that is to say, a righteous man – that we are now going to award you the Palme d’Or. Not in honor of your seniority – heaven forbid! – but for the esteem and especially the admiration you inspire. Admiration for you as a filmmaker and as a man. In this particular case, they can never be separated. Take good care of yourself!

[www.festival-cannes.fr]

 

publicado por annualia às 11:27
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