Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Vida de Machado de Assis - IV

por Josué Montello *

*

Em 1866 chegara ao Rio de Janeiro, a chamado de Faustino Xavier de Novais, a irmão mais nova deste poeta, Carolina Augusta, já mulher feita, de trinta e dois anos, solteira, de conhecidos pendores intelectuais. Encontra o irmão neurasténico, e é ela quem lhe dá assistência ao longo da enfermidade. Machado de Assis, cinco anos mais moço que Carolina, não tarde a conhecê-la, e daí surge a afeição que, à revelia da oposição de Adelaide e Miguel Xavier de Novais, outros de seus irmãos transferidos para o Brasil, termina por superar as dificuldades de família, inspiradas pelo preconceio de cor, e une os dois namorados a 12 de Novembro de 1869, na Matriz de Santa Rita.

O casamento marca uma nova etapa na vida do escritor. Carolina é a companheira perfeita, na compreensão, na concordância de temperamentos, no amor perene, na comunhão de sentimentos. Para um tímido como Machado de Assis, e de mais a mais torturado pela epilepsia, o casamento poderia ter sido um desastre completo. Carolina converte-o num completo triunfo -- não obstante o ciúme pertinaz com que o marido poderia ter infortunado a vida em comum: ela o compreende e o ama, sabe protegê-lo e ampará-lo, dá-lhe a atmosfera de paz e ternura que o grande escritor necessita para construir a sua obra. Tão grande é a influência exercida por ela no destino de Machado de Assis que há quem suponha tenha actuado Carolina no aprimoramento da língua escorreita do mestre de Várias Histórias. Falsa ou excessiva essa suposição, a verdade é que Carolina foi para ele a confidente e a companheira, e disto o escritor nos daria o depoimento comovido nas páginas em que, fechando a sua obra, repassou a felicidade conjugal de Aguiar e D. Carmo, no Memorial de Aires.

Entre 1865 e 1870 vivera o país a dura fase da guerra com o Paraguai. Machado de Assis,, embora retraído e tímido, não ficara alheio ao conflito, e dele recolherá inspiração para algumas de suas páginas. Se lhe falta o calor das grandes vibrações patrióticas, que inspira muitos poetas românticos, isto corre à conta de seu feitio pessoal. O escritor continua a trabalhar a sua obra, firmemente, obstinadamente. No ano seguinte ao de seu casamento, reaparece ele em livro como poeta, publicando as Falenas, e faz a sua estreia, também em livro, como contista, publicando os Contos Fluminenses.

Em 1872 publica Machado de Assis o seu primeiro romance, Ressurreição, na linha dos romances urbanos de José de Alencar. Embora evidenciasse no livro a sua maneira pessoal, como estiloo e uridura romanesca, podia-se reconhecer no tom geral da narrativa a atmosfera alencariana.

Além de contista, romancista, cronista, poeta, crítico, teatrólogo, Machado de Assis é também tradutor. Sua pena parece estar continuamente ocupada -- ou a serviço de trabalhos originais, ou a serviço de trabalhos alheios. E o moço escritor vai acumulando traduções de romances e de peças de teatro na sua bibliografia. Dir-se-ia que as obrigações do lar o impelem a essa porfiada ocupação intelectual.

Em 1873 a vida de Machado de Assis ganha afinal estabilidade , quando o escritor é nomeado amanuense do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. R. Magalhães Júnior, que lhe pesquisou exaustivamente a carreira de funcionário público, adianta-nos que, por decreto de 31 de Dezembro do mesmo ano, Machado de Assis passou de amanuense a primeiro-oficial. Daí em diante, ele não deixará de elevar-se na vida burocrática, como exemplo de assiduidade, competência e dedicação. O emprego público completa-lhe a segurança íntima que lhe adveio o casamento com Carolina.

Aos poucos as letras brasileiras tinham encontrado a sua feição própria, diversa das letras portuguesas. As ideias por que se batera Alencar, pugnando por uma expressão  nacional, na língua literária, na inspiração dos motivos, na cor local, tinham-se ajustado à feição geral de nossa prosa e de nossa poesia, com um Gonçalves Dias, um Castro Alves, um Álvares de Azevedo, um Casimiro de Abreu, um Joaquim Manoel de Macedo, um Martins Pena, um João Francisco Lisboa, um Tobias Barreto, um Fagundes Varela. Uma nova geração literária, que aguerridamente se batera pela abolição do cativeiro e pregara os ideais republicanos, viera-se formando ao fim da Monarquia. Olavo Bilac, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Raimundo Correia, Alberto de Oliveira tinham despontado como valores evidentes, e a verdade é que nenhum deles trazia em si o dom de suplantar Machado de Assis. Pelo contrário: reconheciam-lhe a liderança, proclamavam-lhe a superioridade. (continua)

 

* Publicado em Gigantes da Literatura Universal, vol. 26, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1972.

 

 

publicado por annualia às 23:51
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