Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

OPINIÃO

Salazar e Alfredo Pimenta

por Beja Santos

 

É um dos acontecimentos editoriais do ano, esta correspondência entre um monárquico paradoxal a quem o Cardeal-Patriarca chamava "escritor perigoso" e o inquilino de S. Bento. Abrange uma das mais extensas correspondências privadas que se conhece de Salazar, pois abarca fundamentalmente o período de 1936 a 1950. Alfredo Pimenta foi um dos mais temíveis polemistas do seu tempo. Personalidade contraditória, conceituado medievalista, católico tradicionalista, uma das maiores vítimas da censura criada pelo político que ele tanto admirava, apaixonado pela política nazi, verrinoso e sempre a indispor-se com toda a gente, assumiu-se publicamente como um dos apoiantes incondicionais de Salazar e confessa-o nesta extensíssima correspondência que é de leitura obrigatória para melhor para melhor compreender o consulado do professor de Direito Económico que veio "salvar" as finanças no tempo da ditadura militar (Salazar e Alfredo Pimenta, Correspondência 1931-1950, Prefácio Manuel Braga da Cruz, Editorial Verbo, 2008).

O que há de verdadeiramente importante nesta correspondência, um verdadeiro tratado de mentalidades? Primeiro, o pensamento indestrutível de Salazar, seja na guerra civil de Espanha, seja na neutralidade durante a II Guerra Mundial, seja na questão monárquica, esta tão cara a Alfredo Pimenta. A relação diplomática cuidada com a Espanha, o seu inconfessável desprezo por Hitler, a verificação que faz (aliás, como o próprio Alfredo Pimenta) de que o grupo monárquico é útil como corrente de opinião e suporte do regime mas totalmente desqualificado para ser o esteio de um outro regime. Salazar é fiel à Constituição que criou e justifica-a na fidelidade a Carmona. Segundo, se dúvidas houvessem que Salazar criou um regime para si próprio, à sua imagem e semelhança, esta leitura é clarificadora. Mantendo à distância Alfredo Pimenta, admira o apoio que este lhe dá, encaminha os seus pedidos, faz perguntas à PIDE, à Censura, aos diferentes serviços da administração. Pimenta relata conversas privadas, denuncia colegas, achincalha políticos que cercam Salazar, este nunca admoesta o funcionário da Torre no Tombo que é um prodigioso fornecedor de informações. A ditadura de Salazar assentou também nestes mecanismos labirínticos de ouvir, de testar, de comprovar e comparar opiniões. Ambos temem, em 1945, as consequências sobre o regime, com a vitória dos Aliados. Pimenta encolhe-se perante a argumentação poderosa de Salazar sobre a monarquia e os monárquicos, rende-se à lógica do interesse do Estado e à profunda incapacidade dos monárquicos portugueses. Terceiro, como observa Braga da Cruz, este repositório de correspondência desvela o que ambos pensam sobre o catolicismo e a política, o falhanço da doutrinação nacionalista, Salazar consulta Pimenta sobre a doutrinação nacionalista a resposta deste é insatisfatória mesmo à luz do pensamento da época. Pimenta escreve muito bem, é culto e está rendido ao nacionalismo personificado por Salazar. Ataca os Jesuítas, a democracia cristã, os jornalistas da Voz, das Novidades e do Dário da Manhã. De um modo geral, nas suas respostas Salazar não comenta estes dislates, confirma ou nega rumores que circulam por Lisboa, ambos odeiam a democracia e a generalidade dos democratas do tempo. Quando Pimenta visita Salazar em Santa Comba Dão maravilha-se, transfigura-se e agradece o encontro a Salazar. Quando se dá esta correspondência, ficamos de posse do braço extenso de Salazar, agindo por carta, interpelando ministros, querendo saber o que se passa na Academia Portuguesa de História, no Arquivo Distrital de Guimarães, na organização do Arquivo da Torre do Tombo. Salazar sai da sombra nesta correspondência e espelha-se aqui o verdadeiro peso específico com que orientou, vigiou e comandou sozinho a sociedade portuguesa durante 4 décadas. Lendo esta correspondência de fio a pavio, percebe-se porquê. Daí a sua importância, dai a consideração de que é um verdadeiro acontecimento editorial.

Pimenta começou por ser adepto do socialismo anarquista, chegou a publicar opúsculos de combate republicano, frequentou os seus comícios, militou no Partido Evolucionista de António José de Almeida, que abandonou em 1915, andou perto do Integralismo Lusitano e fundou a Acção Realista Portuguesa, 1923. De facto, com a guerra, mudou de ideias, tornou-se nacionalista e contrário à política anglófila seguida pela maioria das forças políticas do país, tal e tanta era a admiração que tinha pela Alemanha do Kaiser. Adere então aos princípios monárquicos que manteve até ao fim da vida. Braga da Cruz dá-nos conta da essência do que foi o Salazarismo de Alfredo Pimenta: as afinidades eram sobretudo pessoais, amiúde foi brutal e frontal com Salazar que tinha por ele uma elevada consideração, o que não o impedia de o tratar com secura e o manter com respeito como é exemplo uma carta datada de 26 de Fevereiro de 1945: "...Ando bastante longe das pequenas e grandes intrigas da imprensa portuguesa e não desejo fazer juízo das razões que a V.ª Ex.ª assistem para se mostrar tão irritado. Mas se permite uma palavra de franqueza amiga, não fugirei a dizer que encontrei o artigo de V.ª Ex.ª excessivo no ataque. Por outras palavras eu cortaria ainda mais passagens além das que a Censura julgou de ver eliminar. Nós não podemos nem devemos – sobretudo pela pena de um intelectual de verdade – voltar aos velhos tempos de um jornalismo de ataque pessoal... À Censura direi entretanto que não estraguem a gramática dos escritos de V.ª Ex.ª". Acusava permanentemente Salazar estar rodeado de inimigos, dominado por forças ocultas, e, não obstante, pede-lhe favores desde empregos para si e para outros até misericórdia com os alemães e familiares amigos presos pela PIDE. Recrimina Salazar por tentar fazer um Estado Novo com pessoal velho, exige doutrinadores nacionalistas nas escolas, reprova a União Nacional pelo seu amolecimento ideológico, apresenta-se como o piloto secundário do grande timoneiro que é Salazar. Está constantemente inquieto, vê a toda a hora o regime ir ao fundo, com um pessimismo paranóide, que receia que Salazar seja despedido pelos ingleses no fim da guerra, refere-se ao Cardeal Cerejeira e a Marcelo Caetano como figuras dúbias, vê comunistas por toda a parte, até no governo. Escreve amargamente queixando-se de tudo, de figuras gradas da Igreja Católica, de intelectuais, quase tudo. Só a veneração a Salazar é que resiste.

 

 

 

 

 

publicado por annualia às 16:54
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