Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

150 anos da publicação de Les Fleurs du Mal

A modernidade de Baudelaire reside, em primeiro lugar, na sua consciência poética, isto é, a noção de uma poesia que é um valor em si mesma, que se pensa a si própria mas sem viver dela própria, que toma como única regra um critério estético e descarta os preconceitos morais. Assim, a poesia de Baudelaire não teme exprimir o desespero do homem moderno, incerto, inquieto e dividido, que constitui a sua condição trágica. Nela, apesar do voluntário primado da inteligência, exprime-se, em composições breves, uma magia e uma música em que a modulação das sensações desempenha papel fundamental.

L’Albatros

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage

Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,

Qui suivent, indolents compagnons de voyage,

Le navire glissant sur les gouffres amers.

*

À peine les ont-ils déposés sur les planches,

Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,

Laisse piteusement leurs grandes ailes blanches

Comme des avirons trainer à côté d’eux.

*

Ce voyager ailé, comme il est gauche et veule!

Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!

L’un agace son bec avec un brûle-gueule,

L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

*

Le poète est semblable au prince des nuées

Qui hante la tempête et se rit de l’archer;

Exilé sur le sol au milieu des huées,

Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

*

O Albatroz

Por mera brincadeira, os homens de equipagem

Caçam enormes aves do mar, albatrozes

Que, indolentes, costumam seguir a viagem

Do navio percorrendo abismos tenebrosos.

*

Assim que sobre aquelas tábuas são largados

Os reis do céu azul, envergonhados, trôpegos,

Deixam cair, humildes, as imensas asas,

Que arrastam pelo chão, como remos já soltos.

*

Como está mole e frouxo o alado peregrino!

Ele, que tão belo foi, ei-lo cómico e feio!

Um espicaça-lhe o bico, usando o seu cachimbo,

E um outro, coxeando, imita o pobre enfermo!

*

O poeta é igual ao príncipe das nuvens

Que se ri do arqueiro e afronta a tempestade;

Exilado na terra e no meio dos apupos,

As asas de gigante impedem-no de andar.

*

(trad. de Fernando Pinto do Amaral, As Flores do Mal, Assírio e Alvim)

publicado por annualia às 12:05
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

1857-2007: aniversário da publicação de Les Fleurs du Mal, de Baudelaire

publicado por annualia às 23:38
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