
Poeta espanhol, também ensaísta, jornalista e pintor (Madrid, 24.12.1942 – ibid., 13.9.2009) cuja obra foi distinguida ao mais alto nível. O seu primeiro livro de poesia foi Grito con carne y lluvia (1961), obtendo o Prémio do Clube Internacional de Poesia de Jerez de la Frontera, seguindo-se-lhe La valija (1962) e Ámbito de entonces (1973). Em 1964 for a distinguido com o Prémio Adonais pela obra La ciudad e, em 1968, Coro de ánimas obteve o Prémio Nacional de Poesia. Diversamente premiados foram também os livros Fiesta en la oscuridad (1976), Sangre en el bajorrelieve (1979) ou Interminable imagen (1995). Em 1999, Bajorrelieve foi galardoado com o Prémios Hispano-americano de Poesia Juan Ramón Jiménez. Entre 1996 e 1997, Itinerario para náufragos venceu o Prémio Internacional de Poesia Jaime Gil de Biedma, o Prémio Nacional da Crítica e o Prémio Nacional de Poesia.
ENVOI
Depois de morto o quê? Queimado, não.
E também não fechado num caixão,
sempre padeci de claustrofobia. Quero
- se possível - secar ao sol e à chuva,
sem ser enterrado. Certo que hão-de pôr-me
debaixo da terra nalguma parte,
se não me engavetarem num jazigo.
Não quero regressar à terra maternal,
que não me atrai como memória de útero,
nem me quero arquivado em lata de conserva.
Posso pedir, por exemplo, que me deitem ao mar:
Não deitarão. Será que me enterravam
numa praia, na areia, aonde as águas viessem?
Se têm de me enterrar, que seja assim,
Mas não vestido, nem penteado, nem lavado.
Nu. Que me penteie o mar molhando a areia,
e eu de mim escorra as águas que me lavem.
Nas grandes marés vivas ondas recurvadas
virão estrondear por sobre mim, rapando
em espuma rechinante a areia que me cobre.
Nada ouvirei, nem sentirei, carcassa,
emerge um pé daqui, além um braço,
e mais acima uma caveira rindo.
Se o mar me não levar, enterrem-me depois
como quiserem, descarnado e limpo.
Terei assim, ao menos por um tempo,
o sol, a areia, o mar por minha conta
como quem vai deitar-se numa praia
e nu, olhando o céu, sonha de si
e de outros corpos nus na areia ardendo
que o som das águas cobre como amor que molha
num refrescar da pele acariciada ao vento.
18.12.1971
JORGE DE SENA
em 40 Anos de Servidão, Moraes Editores, 1979
Ver notícia aqui.
O poeta João Rui de Sousa foi distinguido com o Prémio Nacional António Ramos Rosa pelo livro Quarteto Para as Próximas Chuvas (Publicações Dom Quixote, 2008). Instituído pelo pelouro de Cultura da Câmara Municipal de Faro, o prémio é patrocinado pela Direcção Regional de Cultura do Algarve e pela Universidade do Algarve, e será entregue ao vencedor amanhã, às 17.30, na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, em Faro [no Diário de Notícias via Blogtailors]. O mesmo livro tinha já sido distinguido com o Prémio Teixeira de Pascoaes. Sobre João Rui de Sousa ver aqui.
Actualizado, como prometido, o texto relativo ao poeta e filósofo M. S. Lourenço. Aqui.
Morreu o poeta e filósofo M. S. Lourenço. Ver notícia no Público.
Excerto do artigo de Miguel Tamen no segundo volume de Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa.
Poeta, prosador, filósofo, de seu nome Manuel dos Santos Lourenço (Sintra, 13.5.1936 - ibid., 1.8.2009). «A carreira de M. S. Lourenço como escritor é inseparável da sua carreira como filósofo profissional. De facto, não apenas uma relativa indistinção de géneros é típica daquilo que escreveu (especialmente da prosa) como aos seus livros declaradamente de filosofia (Espontaneidade da Razão, 1986; Teoria Clássica da Dedução, 1991; A Cultura da Subtileza, 1995), à tradução das duas obras principais de Ludwig Wittgenstein e a artigos sobre teoria da literatura não são de todo estranhas preocupações literárias. (…)
Numa primeira fase da sua carreira, M. S. Lourenço publicou três livros (O Desequilibrista, 1960; O Doge, 1962; Ode a Upsala, 1964, [os dois últimos pretensamente escritos pelo arquiduque Alexis Christian von Gribskov]) fortemente marcados por uma indistinção de géneros e pela importância dada ao método da associação livre tal como teorizado pela primeira geração surrealista (…).
Numa segunda fase, M. S. Lourenço publicou três livros declaradamente de poesia (Arte Combinatória, 1971; Wytham Abbey, 1974; Pássaro Paradípsico, 1979) que, sobretudo os dois primeiros, reflectem a sua passagem por Oxford e a asua familiarização com tradições poéticas de língua inglesa (…). Processos literários como a colagem, a alusão, a tradução e a citação, frequentemente desfiguradas por transformações de natureza irónica, são típicos desta segunda fase.
Numa terceira fase, a produção literária de M. S. Lourenço é marcada pela redescoberta da poesia romântica tardia e simbolista (a partir de Baudelaire) e ainda pela presença, cada vez mais insistente, de um cânone retirado da literatura portuguesa, em que ocupam papel de destaque Cesário Verde e Eça de Queirós. Com esta redescoberta assiste-se progressivamente à emergência de preocupações com aquilo a que se poderia chamar uma versão acerca da origem do significado, inseparável, em M. S. Lourenço, de uma teoria acerca do substrato musical e, de facto, sonoro de todos os conteúdos semânticos. Desta terceira fase são característicos o livro de poesia Nada Brahma (1991) e, sobretudo, a colectânea de ensaios curtos em prosa Os Degraus do Parnaso (1991), que retoma, a par da tradição ensaística curta de língua alemã, uma forma em última análise derivada dos «petits poèmes en prose» baudelairianos. Os Degraus do Parnaso (Prémio Dom Dinis da Fundação da Casa de Mateus) é a este respeito um extraordinário marco da prosa contemporânea em Portugal (…).»
O poeta egípcio Mounir Saied Hanna foi preso em Maio e posteriormente multado em mais de 12 500 euros e condenado a três anos de prisão por ter escrito poemas interpretados como insultuosos para o presidente egípcio. O irmão de Mounir e a acção de uma ONG, The Arabic Network for Human Rights Information, fizeram com que a sentença fosse agora revista e reduzido para três meses o período de prisão.
Um dos poemas citados em tribunal é mais ou menos assim:
Brilha, brilha tu que nos iluminas a todos
Brilha, brilha tu que iluminas
Nada brilha como tu brilhas
Fazes o povo sentir-se confuso e perdido
Fazes o povo sentir-se feliz e perdido.


O escritor Armando Silva Carvalho foi o vencedor, por unanimidade, da edição de 2008 do Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores/CTT com a colectânea O Amante Japonês. O júri era constituído por Maria João Reynaud, Gastão Cruz e Carlos Mendes de Sousa. Ver notícia do Público.
Armando Silva Carvalho (Olho Marinho, Óbidos, 1938) é poeta e ficcionista. «Um dos aspectos mais importantes na obra do autor de Armas Brancas (1977) é a consciência de que, nos seus textos, ainda se ouvem, ao lado dos intrumentos de poder da tecnologia urbana, os ruídos dos já uma vez clássicos instrumentos clássicos do bucolismo. Por meio dessa simultaneidade, desenvolve-se a força expressiva da sua escrita: a ironia sobre o modo de produção da literatura. A veia satírica, associada à dialéctica da composição do literário como memória do objecto cultural e político, faz de Armando Silva Carvalho uma personalidade original. (...) A concepção da escrita como um trabalho específico e comprometido na diversidade dos trabalhos sociais, e um apurado jogo linguístico - onde o erotismo é flagrante - voltam a reflectir sobre os domínios da contiguidade entre as noções de forma e sentido em literatura, associando-as às de uso, troca, lucro e prazer num mundo capitalista (cf. Lírica consumível, 1965). Nos textos de Armando Silva Carvalho, o reconhecimento dos limites do literário na transformação da sociedade é prova da inteligência acerca dos termos de responsabilidade entre o que se escreve e o que resta escrito.»
Jorge Fernandes da Silveira em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Vol. 1, Lisboa, 1995

Ver poemas e outras informações aqui.

Hoje às 17:30 h na Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
Intervenções de João Bigotte Chorão, José Valle de Figueiredo e António Leite da Costa.
Jorge Colaço, excerto de um livro não publicado
Poeta cabo-verdiano de seu nome completo Arménio Adroaldo Vieira e Silva (n. Praia, 29.1.1941). Estudante liceal até ao 6.º ano em São Vicente, a actividade de meteorologista fixou-o na ilha natal de Santiago, onde também fez jornalismo e foi professor de Português. Quando, em 1964, tem de sair de Cabo Verde para servir militar em Portugal, já o seu nome figura entre a «novíssima» geração de poetas que, através de uma página literária de vida efémera -- «Seló» (duas edições em 1962) -- do jornal Notícias de Cabo Verde, se propunha como um movimento renovador que, sem ruptura com as coordenadas estéticas e socioculturais dos movimentos da Claridade e da Certeza, convocasse a consciência colectiva pela «necessidade de protestar e dar alarme» perante as crises típicas dos «flagelados do vento leste».
Arménio Vieira assume vigorosamente a «sua» consciência, opondo (ou substituindo) à tópica anterior do evasionismo e da resignação o «poema/ que se há-de escrever/ na hora exacta/ em que os homens despertarão/ para uma vida plena/ de consciência da terra». Esta «consciência» trasmuda-se para um cosmopolitismo europeizante no seu único romance, No Inferno, o qual, «marimbando na lógica e no encadeamento natural dos acontecimentos, umas vezes com base em ocorrências de natureza autobiográfica e outras vezes a partir de ideias e motivos tomados de empréstimo a uma vasta literatura pretérita», se definiria como um anti-romance. Está incluído em várias antologias e revistas, designadamente em Cabo Verde (1962 e 1978), Mákua (1963), Vértice (1971), no Reino de Caliban (Manuel Ferreira, 1975), Raízes (Cabo Verde, 1978), Contratempo (Luís Romano, 1982), África (1986) e 50 Poetas Portugueses (Manuel Ferreira, 1989). Prefaciou, em 1987, o livro de Baltazar Lopes, Os Trabalhos e os Dias, e publicou em livro: Cabo Verde (1979), Cântico Geral (1981), Poemas (1981), O Eleito do Sol (1989, 1992), No Inferno (2001), MITOgrafias (2006).
Leonel Cosme
em Biblos - Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa (volume 5, cols. 846-847, Lisboa, 2005)
Ver notícia no Público