Escritor português (Covilhã, 1927 - Lisboa, 8.12.2008). Licenciado em Direito, um intenso envolvimento cultural desperta-lhe a necessidade de intervenção, que o leva à actividade editorial (funda a Moraes Editora) e à direcção da revista O Tempo e O Modo, moldada, na primeira fase da sua publicação na Esprit, revista francesa de inspiração personalista cristã. Mais recentemente colaborou dispersamente em jornais e foi presença regular da rádio e na televisão, tendo desempenhado o cargo de presidente do Instituto Português do Livro.
Em 1971 inicia a publicação de Peregrinação Interior (vol. I, Reflexões sobre Deus) que continuará em 1982 (vol. II, O Anjo da Esperança), escrita num registo sem muita tradição entre nós: intensamente autobiográfico, não é uma autobiografia; espaço de encontros e desencontros, não chega a ser memorialismo; as hipóteses que aí se produzem recusam o modo ensaístico e, liberto do absolutamente circunstancial, afasta-se da pura crónica. É, antes, tudo isso e mais do que isso, uma contínua meditação no tom solto da conversa, lugar de intersecção de tudo, onde se vai desenhando uma vivência e uma comunicabilidade, na ímplícita responsabilidade de manter «entre a palavra escrita e o pulsar da própria vida, uma intíma e visceral relação». que se ligamm respectivamente a uma inquietação e a uma procura -- pessoal, religiosa, cultural.
Dirá uma personagem de Os Nós e Os Laços (1985) quando a condição narrativa deste modo de estar se deixa tentar pelo modelo romanesco: «estar vivo é uma espécie de inquietação». A ficção de Alçada Baptista é, afinal, a sua maneira de continuar a conversa, em que as personagens são mais instrumentos de reflexão conversada, modulações de uma única consciência, formas de uma mesma procura e inquietação, do que indíviduos numa história. Testemunham-no a própria estrutura da narrativa e uma certa artificialidade do diálogo, acentuada com a frequente convocação de segmentos narrativos de um outro texto maior -- o «texto cristão», referência primeira e permanente, texto fundador, civilizacional, no qual todos os gestos se inscrevem.
Outra desenvoltura está, contudo, presente num outro diálogo -- aquele que se verifica entre os dois textos, o cristão e o que Alçada Baptista vai produzindo, diálogo complexo, crítico e exigente, cheio de distanciações e de retornos, nos dois extremos da sua oscilação: incomodidade que não se deixa ser cepticismo e desejo de esperança, que não quer ser luminosidade. No cerne deste diálogo está a relação humana (e a sociedade no seio da qual essa relação se fabrica) e aquele que o seu momento mágico, a relação amorosa, imbricada na teia da cultura e dos equívocos. Contudo, não há nele qualquer veemência. Há mesmo um quase completo desinvestimento dramático, uma assumida ausência de ideias fortes, totalizantes, uma liberdade de tiranias e de fidelidades que é, tantas vezes, uma forma de lucidez.
Outras obras: O Tempo nas Palavras (crónicas, 1971), Conversas com Marcello Caetano (1978), Uma Vida Melhor (infantil, 1984), Catarina ou O Sabor da Maçã (ficção, 1988), Tia Susana, Meu Amor (ficção, 1989), Um Passeio por Lisboa (geografia literária, 1989), O Riso de Deus (ficção, 1994), A Pesca à Linha. Algumas Memórias (1998), O Tecido do Outono (1999), Um olhar à nossa Volta (2000), A Cor dos Dias. Memórias e Peregrinação (2003).
Jorge Colaço
(publicado em Biblos-Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. I, Lx., 1995).