Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Roy Campbell (1901-1957)

Roy Campbell, a tartaruga flamejante*

 

por Eugénio Lisboa

 

 

 

Roy Campbell, de seu nome completo, Ignatius Royston Dunnachie Campbell, nasceu em Durban (África do Sul), em 2 de Outubro de 1901 e viria a falecer, em viagem, de Espanha para Portugal, perto de Setúbal, em 23 de Abril de 1957. O pai, Samuel George Campbell, nascido em 1861, no Natal (África do Sul), foi um brilhante aluno de medicina, em Edimburgo (Escócia), tendo ganho três prémios: em cirurgia, em clínica cirúrgica e em botânica.

Fez uma pós-graduação em Paris, no Instituto Pasteur, e foi, depois, para Viena, especializar-se em doenças do nariz, dos ouvidos e da garganta. Regressou ao Natal, onde, durante três anos, estagiou, para depois regressar à Escócia, em 1886, e aí obter o seu grau de MD (Medicine Doctor), tendo-se tornado um "Fellow" do Royal College of Surgeons. Samuel Campbell, além de profissionalmente brilhante, era um atleta (em corridas, natação, e rugby). Como médico, foi de uma dedicação exemplar, tratando com igual devoção brancos e negros, o que lhe ganharia o duradouro amor da gente Zulu.

O terceiro filho Roy(ston) Campbell, herdou o seu nome – Royston – de um tio por afinidade, o famoso Coronel ‘Galloping Jack’ Royston, cujos feitos marciais eram lendários na crónica familiar. Dele herdaria Roy o seu feitio aventureiro, assim como herdaria também, dos seus antepassados escoceses, os ideais, o gosto pela poesia e pelas canções folclóricas que se viriam a fundir, no seu imaginário ebulitivo, com a atraente imensidão da selva africana. Durban onde Roy passou a infância era a mesma cidadezinha que, por essa mesma altura, albergava a adolescência do poeta Fernando Pessoa: casas de madeira e zinco e largas avenidas de areia. Como observava o biógrafo de Campbell, Peter Alexander, "era cercada, em três lados, pelo denso matagal subtropical e, no quarto, pelo Oceano Índico". Os Campbell, nota ainda Alexander, "tinham o espírito e o punho prontos e eram bons soldados, grandes caçadores e pescadores". Roy, ainda criança, viu o pai partir para a guerra com os Zulus, que se rebelaram em todo o Natal, no ano de 1906. Muito cedo, portanto, a poesia, a música, o desporto, a acção, a guerra, a violência fecundaram o imaginário deste grande poeta de língua inglesa, admirador, mais tarde, da poesia simbolista e decadentista de outros grandes poetas europeus mas produtor de um lirismo em tudo diferente desse: enérgico, épico, afirmativo, forte.

Em 1918, com dezassete anos, viajou para Oxford, onde nunca se graduou devido às suas dificuldades com o grego clássico. Mas foi um período fecundo de leituras extensas e meditadas e de encontros importantes. Um dos mais fecundos foi com o compositor William Walton (mais conhecido, entre nós, por ser o autor da partitura musical do filme Hamlet, de Laurence Olivier). Com Walton, observa Alexander, "aprendeu a dedicar-se completamente à sua arte. O artista deve estar preparado para aceitar todas as privações com o objectivo de se devotar à sua arte (...) Deve atirar pela borda fora quaisquer constrangimentos morais ou qualquer convenção social que possa impedi-lo de viver completamente para o seu ofício. Esta ideia, tão estranha à escala de valores da sua família, constituíu uma revelação para Campbell; uma vez tendo-a aceite, nunca mais se desviou dela."

Ainda em Oxford, além de encontros sexuais casuais com duas empregadas de restaurante irlandesas, Campbell experimentou também pelo menos duas relações homossexuais de curta duração: "A sua bissexualidade", observa Alexander, "era ainda uma outra faceta da sua natureza dividida (...). Estas parecem ter sido as suas primeiras ligações homossexuais e ilustram até que ponto o poder sobre si dos valores e tradições familiares parecia estar a enfraquecer."

A amizade com Walton trouxe-lhe ainda outros encontros, entre eles, Wyndham Lewis e T. S. Eliot. Com este último, ficaria ligado até ao fim da sua vida, embora fossem temperamentos poéticos e personalidades diametralmente opostas.

Num carta para o pai, afirma: "Já li cerca de três quartos de Darwin e Freud e uma boa quantidade de Huxley, além de sete volumes de Nietzsche." Numa estadia em Londres, partilhará um apartamento com Huxley que descreverá como "este pedante que se regozijava, de olho irónico, com os seus conhecimentos sobre o modo de copular das lagostas embora fosse incapaz de as pescar e, muito menos, de as cozinhar."

Depois de um período na Provence, para fugir à "sujidade" inglesa, regressa a Londres e casa com a bela Mary Garman, de quem nunca se separará, apesar das ligações sexuais dela com a voraz Vita Sackville-West, que seriam causadoras de não pouco sofrimento em Roy e de um sério agravamento das suas tendências alcoólicas.

Em 1924 publica o seu hoje famoso livro, The Flaming Terrapin, que teve calorosa recepção, tanto em Inglaterra, como nos Estados Unidos, onde foi publicado quase simultaneamente. Escrito enquanto o casal se encontrava a viver numa remota aldeola do País de Gales, o livro, ainda em manuscrito, impressionou sobremaneira T. E. Lawrence, que o recomendou ao editor Jonathan Cape, para publicação. Críticos influentes como Edward Garnett e Desmond McCarty sentiram-se imediatamente atraídos por aquilo que Alexander apelida de "a pura energia" do poema. "Não há dúvida", nota, com justeza, o biógrafo, "de que a recepção entusiástica a Campbell ficou a dever alguma coisa à polarização geral dos campos literários típica dos anos vinte. Ele (Campbell) foi bem acolhido pelos apoiantes dos românticos sanguíneos, como uma espécie de antídoto ao cepticismo seco dos seguidores de Eliot (...) Embora vários críticos, incluindo MacCarty e Garnett, pensassem que Campbell precisava de moderar a sua voz e curvar a sua "maneira extravagante", concordavam que mais valia ter demasiada energia do que não ter nenhuma." Misturando da maneira mais bizarra Cristo, Darwin e Nietzsche, Campbell afirmava, sem pudor, que Cristo tinha sido o primeiro a "proclamar a doutrina da hereditariedade e a sobrevivência dos mais aptos." Ainda segundo o autor de The Flaming Terrapin, este "ponto de vista aristocrático" tinha sido mal entendido por Nietzsche, que o tomara por uma "religião dos fracos." Segundo Campbell, o dilúvio, no poema, representava a Grande Guerra e a família de Noé representaria "a sobrevivência dos mais aptos." A tartaruga que rebocava a Arca seria o símbolo "da força, da longevidade, da resistência e da coragem." Segundo Kerry Bolton, "o poema publicado em 1924 na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos recebeu aclamação crítica da imprensa, pelo seu sopro de frescura e juventude, rompendo quer com as banalidades do passado, quer com o niilismo céptico da nova geração."

No ano da publicação do livro que o tornou famoso, Roy Campbell voltou à África do Sul para uma estadia que se revelou um fiasco, embora aí tivesse escrito alguns dos melhores poemas do que viria a ser o seu livro Adamastor: "The Serf", "The Zulu Girl", "To a pet cobra", "The Making of a Poet" e "Tristan da Cunha". Regressando a Londres, Campbell e a mulher são introduzidos no grupo de Bloomsbury, que incluía a notória poetisa e ficcionista Vita Sackville-West e o marido Harold Nicholson, Virginia e Leonard Wolf, Richard Aldington, Aldous Huxley, Lytton Strachey e outros. Em Some Thoughts on Bloomsbury, o poeta de Adamastor considera nauseantes as maneiras refinadas e pretenciosas de todo o grupo. Volta à Provence, que, em 1933, abandonará, trocando-a pela Espanha, onde se converte ao catolicismo, juntamente com sua mulher, em 1935. Segundo relato da filha, Ana, feito alguns anos mais tarde, como refere Kerry Bolton, "a Espanha era [para Campbell] o último país da Europa que mantinha o estatuto de uma sociedade pastoral, ao passo que tudo o resto se tinha industrializado por influência do protestantismo." Em Espanha, a família foi viver em Toledo, "a cidade sagrada do espírito", como lhe passou a chamar o poeta.

Campbell viveu em Espanha durante a guerra civil, tendo ali desempenhado o papel de correspondente para o jornal inglês (católico), The Tablet. Ainda tentou alistar-se nas forças nacionalistas, de Franco mas foi desencorajado pela entourage do caudillo, que era de opinião que o poeta seria mais útil à causa na sua qualidade de escritor. O livro Flowering Rifle é um tributo ao catolicismo, à Espanha e condena, ao mesmo tempo, a intelligentsia britânica que acusa de tomar sistematicamente partido pelo cão contra o homem, pelo judeu contra o cristão, pelo negro contra o branco, pelo criado contra o patrão e pelo criminoso contra o juiz.

Durante a II Guerra Mundial, a viver de novo em Inglaterra, embora odiando igualmente todos os sistemas – democracia, fascismo e bolchevismo – mostrou uma certa simpatia pelo espírito de obstinada resistência da Grã-Bretanha – "a nação guerreira" – e alistou-se na Home Guard, até 1942. No pós-guerra, Campbell voltou ao ataque feroz à esquerda intelectual. Apesar da sua defesa feita por pessoas como Vita Sackville-West e Desmond MacCarthy, o poeta Cecil Day-Lewis emitiu a opinião de que Campbell deveria ser demitido do posto de produtor da "BBC talk" por "não ser digno de dirigir qualquer forma civilizada de expressão cultural."

A viver em Portugal, desde 1952 (e aí tendo traduzido para inglês dois romances de Eça de Queirós: O Primo Basílio e A cidade e as Serras), Campbell viria a falecer, como já dissemos, num acidente de automóvel, a sul de Setúbal, no dia 23 de Abril de 1957, com 56 anos incompletos. Mostrando até ao fim, frequentemente do modo mais controverso, a inesgotável energia da "tartaruga flamejante."

Obras de Roy Campbell:

Poesia: The Flaming Terrapin, 1924; The Wayzgoose, 1928; Poems, Paris, 1930; Adamastor, 1930; The Gum Trees, 1930; The Georgiad, 1931; Nineteen Poems, 1931; Choosing a mast, 1931; Pomegranate, 1932; Flowering Reeds, 1933; Mithraic Emblems, 1936; Flowereng Rifle, 1939; Sons of Mistral, 1941; Talking Bronco, 1946; Nativity, 1954; Collected Poems, 3 vols, 1949, 1957, 1960.

Prosa: Taurine Provence, 1932; Broken Record, 1934; Light on a Dark Horse, 1951; Lorca, 1952; The Mamba’s Precipice, 1953; Portugal, 1957.

Traduções:Helge Krog, Three Plays, 1934; The Poems of St. John of the Cross, 1951; Baudelaire, Poems: A Translation of Les Fleurs du Mal, 1952; Eça de Queirós, Cousin Basilio, 1953; Eça de Queirós, The City and the Mountains, 1955.

 

*Texto integral (publicado na Annualia 2006-2007)

 

 

publicado por annualia às 16:49
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