Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Annualia 2007-2008: uma recensão crítica

por Beja Santos

Este terceiro volume consecutivo da Annualia é uma pequena preciosidade. A Annualia veio substituir a Enciclopédia Verbo no seu formato clássico e é um achado editorial, como compromisso entre a estrutura enciclopédica do passado e as preocupações de uma publicação anual onde se registam dossiês e factos pertinentes, efemérides, se abordam grandes temas da actualidade ou se evocam figuras prestigiantes que desapareceram durante o período em análise. E, não menos importante, pelo o seu carácter documental, ficam também averbadas as atribuições de prémios em contexto nacional e internacional e passa-se em revista o dossiê do mundo em 2007.
Nos temas em debate, logo na abertura desta Annualia sucedem-se as intervenções de Adriano Moreira, Valadares Tavares, Tomás Espírito Santos e Manuela Franco, abordando dimensões tão díspares como os Portugueses e Portugal e a guerra do Médio Oriente. Na rubrica "Factos e Realidades " são possíveis comentários à volta de Ribonuclease II, as tecnologias energéticas, o Irão na era Ahmadinejad ou Amadeu Sousa Cardoso. Na exaltação dos valores museológicos tem destaque o Museu Nacional de Arqueologia. Hergé ou a partida da Corte para o Brasil, há dois séculos, são saudadas como efemérides inescapáveis, em 2007, Max Planck, o regicídio, Vieira da Silva, Guimarães Rosa, Olivier Messiaen, von Karajan, estão entre as efemérides de 2008. Pina Martins ou Ricardo Pais destacam-se como figuras ou percursos. E partiram deste mundo Cesariny, Oliveira Marques, Fiama Hasse Pais Brandão e Filipe de Sousa entre outros.
A Annualia é pois uma agradável surpresa. Sobre a identidade portuguesa, Adriano Moreira observa que as entidades também se constróem na perpetuação de figuras de referência: Mouzinho de Albuquerque afirmando que "Este Reino é obra de soldados"; uma longa identidade que se exprimiu na expansão marítima e na criação do Império, no combate pela restauração, a nação unida contra as invasões francesas, isto a par da dependência de uma chefia variavelmente legitimista revolucionária, restauradora, carismática, de ditadura parlamentar, alienante, do exercício crítico do civismo, sebasteanista. Os personagens são muitas vezes os estandartes do sonho imperial, do europeísmo da determinação ou do grande projecto. Diz Adriano Moreira que "A contaminação das identidades decorre entre duas vocações das sociedades, uma vocação conservadora e uma vocação inovadora. Depois do 25 de Abril, extinto o império, lançado o processo de democratização, Portugal europeízou-se, não poucas vezes, reproduzindo, imitando ou copiando. Nesta hora da redefinição das soberanias europeias, Portugal lança-se numa nova aventura em busca de identidade.
Falemos agora do Museu Nacional de Arqueologia. Foi fundado por Leite de Vasconcelos que o concebeu como um "museu do homem português", onde se interceptavam a Arqueologia, a Etnografia, e a Antropologia. Neste museu reuniram-se elementos materiais que concorriam para o conhecimento total da vida do homem no nosso solo (tipos físicos, trajos, indústrias, costumes, crenças, habitações, arranjo doméstico, gostos artísticos, folganças, mostrando exemplos das civilizações que por aqui passaram. Concorreram para o acervo do museu o acervo de arqueologia o antigo Museu de Belas Artes bem como numerosas doações de coleccionadores privados. De Museu Etnográfico Português passou para Museu Etnológico, mas manteve-se o espírito de local de encontro de múltiplos saberes e investigações. A Leite de Vasconcelos sucede Manuel Heleno, um historiador competentíssimo que trazia o projecto de construir um museu histórico-cultural, nacional ou até imperial alicerçado na arqueologia. Dotado de uma grande solidez disciplinar, investigador com grande trabalho de campo, Heleno lançou as bases de um património arqueológico de grande valor. Com a chegada do Museu Nacional de Arqueologia definia-se um espaço de exibição, conservação e estudo cobrindo todos os períodos históricos e praticamente todas as zonas geográficas de Portugal. Hoje o Museu Nacional de Arqueologia assegura assessoria museológica, forma pessoal, disponibiliza recursos educativos, promove encontros científicos e profissionais além de que é o local mais adequado em Portugal para a apresentação de temas da arqueologia internacional os mais variados.
A Annualia é assim um livro de cabeceira e de consulta a desoras. Hergé teve o seu primeiro centenário em 2007, é um dos sumo-sacerdotes da BD, o genial criador de Tintim, o jovem jornalista exemplar com histórias audaciosas pelo o mundo inteiro. Mas a sua ousadia na BD não se confinou a Tintim, deixou-nos uma plêiade de figuras destinadas à posteridade: o Capitão Haddock, colérico, eufórico e sentimental; o Professor Girassol, o sábio mais distraído do universo; Bianca Castafiore, a caprichosa diva do bel-canto; Dupond e Dupont, os desastrados polícias que muitas vezes triunfam na sombra dos êxitos retumbantes do jovem Tintim... Hergé criou uma vasta galeria de personagens como mordomos, meninos traquinas, um comerciante e um sábio português, um canalha de grande coturno, Roberto Rastapopoulos, o marquês de Gorgonzola, mas também o cão Milu, o General Alcazar, um charlatão sempre á procura de revoluções, gente chata como Serafim Lampião, entre tantos outros. Hergé é um habilidoso anotador de códigos de valores ainda hoje ancorados e apreciados por crianças de todas as idades.
Este ano a Editorial Verbo comemora cinquenta anos. A vida editorial portuguesa teve na verbo uma elevadíssima expressão cultural, na Enciclopédia e nas enciclopédias especializadas, em grandes obras que giraram à volta da arte e do património cultural, mas também do livro infantil, do estudo universitário e até do dicionário.
É a historia de um esforço que merece ser saudado nesta Annualia 2007-2008.
publicado por annualia às 13:08
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