Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Nancy Spero (1926-2009)

Artista plástica norte-americana (Cleveland, 24.8.1926 – Nova Iorque, 18.10.2009) que iniciou a sua carreira em Chicago, onde estudou, vindo para a Europa, em 1959. Em Paris, onde se fixou, tomou contacto com o pensamento existencialista, que a sua pintura de algum modo começou a reflectir. De novo nos EUA, em 1964, a sua arte adquiriu o cariz de intervenção política que os tempos exigiam, assumindo, por exemplo, uma posição relativamente à Guerra do Vietname. O seu trabalho combina desenho, pintura, colagem, gravura, etc., e dele emerge uma visão particular da figura feminina, sobretudo a partir de meados dos anos 70, orientando-se para um combate feminista, que atanto abordou a violência e a exclusão das mulheres, como o seu heroísmo libertário. No último quartel do século XX, a sua pintura ganhou visibilidade, na medida em que combinou o empenhamento social com o tipo de expressão artística de que se tinha mantido afastada, o minimalismo por exemplo. Em 1992, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque mostrou uma retrospectiva do seu trabalho, além de ter sido incluída em várias mostras, nos EUA e na Europa.
Imagens e entrevistas aqui.

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Sábado, 10 de Outubro de 2009

Prémio Nobel da Paz 2009

Nobel Prize® medal - registered trademark of the Nobel Foundation

O Comité norueguês do Nobel decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz de 2009 ao presidente Barack Obama, pelos seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos. O Comité deu especial importância à importância da visão e do trabalho de Obama por um mundo sem armas nucleares.

Como Presidente, Obama gerou um clima novo na política internacional. A diplomacia multilateral reconquistou um lugar central, com ênfase no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais podem desempenhar. O diálogo e a negociação são instrumentos da resolução dos conflitos internacionais, mesmo os mais difíceis. A perspectiva de um mundo sem armas nucleares tem estimulado fortemente as negociações de desarmamento e de controlo de armas. Graças à iniciativa de Obama, os EUA estão agora a desempenhar um papel mais construtivo na questão das grandes alterações climáticas, com que o mundo se confronta. A democracia e os direitos humanos serão fortalecidos.

Só raramente alguém consegue chamar a atenção do mundo ao ponto que Obama o tem feito e dar ao seu povo esperança num futuro melhor. A sua diplomacia assenta no conceito de que aqueles que lideram o mundo devem fazê-lo com base em valores e atitudes partilhadas pela maioria da população mundial.

Ao longo de 108 anos, o Comité norueguês do Nobel tem justamente procurado estimular essa política internacional e essas atitudes, das quais Obama é, hoje, o porta-voz mundial. O Comité subscreve o apelo de Obama de que «é tempo de todos termos o nosso quinhão de responsabilidade na resposta global aos desafios globais».

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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

William Safire (1929-2009)

 

Cronista e escritor, colunista político do New York Times (Nova Iorque, 17.12.1929 – Rockville, Maryland, 27.9.2009) galardoado, em 1978, com o Prémio Pulitzer. Iniciou a sua carreira como repórter do The New York Herald Tribune. Produtor de rádio e televisão, conseguiu ardilosamente juntar Nixon e Krutschev num debate realizado em Moscovo, em 1959. Ligado à campanha presidencial de Nixon, escreveu diversos dos seus discursos como presidente. Em 1975, escreveu as memórias desses anos no volume Before the Fall. Organizador de dicionários e antologias, William Safire é autor de quatro romances: Full Disclosure (1978), Freedom: A Novel of Abraham Lincoln and the Civil War (1987), Sleeper Spy (1995) e Scandalmonger (2000). Membro da administração dos Prémios Pulitzer desde 1995, Safire manteve ainda, a partir de 1979, uma coluna semanal no The New York Times Magazine, intitulada «On Language», onde abordou questões de gramática, uso e etimologia, textos que depois foi reunindo em diversos livros.

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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Leon Kirchner (1919-2009)

 

Compositor e chefe de orquestra americano de ascendência russa (Brooklyn, Nova Iorque, 24.1.1919 – Manhattan, Nova Iorque, 17.9.2009) que estudou sob a direcção de Schönberg, Roger Sessions e Ernest Bloch. Identificado com a estética da 2.ª escola de Viena, soube sempre permanecer fiel a um estilo muito pessoal, nunca tendo adoptado integralmente a ortodoxia da música dodecafónica. Recebeu o prémio Naumburg pelo seu Concerto para piano n.º 1 e foi distinguido com o prémio Pulitzer da Música (1967) com o seu Quarteto n.º 3, com banda magnética. Foi compositor residente no Festival de Música de Câmara de Santa Fé e no Centro Musical de Tanglewood, tendo por diversas vezes sido responsável pela direcção de orquestras em festivais, como o de Aldeburgh. Foi professor de Música em Harvard entre 1961 e 1989. Um dos seus mais notáveis discípulos foi o violoncelista Yo-Yo Ma.

Algumas obras: Sonata para piano (1948), Quarteto de cordas n.º 1 (1949), Sinfonia (1951), Sonata concertante para violino e piano (1952), Concerto para piano n.º 1 (1953), Tocatta, para orquestra de câmara (1955), Quarteto de cordas n.º 2 (1958), Concerto para violino, violoncelo, 10 sopros e percussão (1960), Concerto para piano n.º 2 (1963), Words from Wordsworth, para coro misto a capella (1966), Quarteto de cordas n.º 3 (1966), Música para orquestra (1969), Lily, ópera em 3 actos (1977, libreto baseado em Saul Bellow), Música para Flauta e Orquestra (1978), The Twilight Stood, para soprano e piano (1982), Para Violino Solo (1986), Para Viloncelo Solo (1986), Cinco peças para piano (1987), Tríptico, para violino e violoncelo (1988), Para Violino Solo II (1988), Música para Orquestra II (1990), Música para violoncelo e orquestra (1992), Para a mão esquerda (1995), Of Things Exactly As They Are, para soprano, barítono, coro e orquestra (1997).

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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Patrick Swayze (1952-2009)

Patrick Swayze

Actor americano (Houston, 18.8.1952 - Los Angeles, 14.9.2009) cuja carreira, embora iniciada em 1979, conheceu um forte impulso com a série televisiva North and South (1985-1986), a que se seguiu de imediato Dirty Dancing (1987, de E. Ardolino) pelo qual foi nomeado para os Globos de Ouros, facto que aconteceu depois também com Ghost (1990, de Jerry Zucker) e To Wong Foo Thanks for Everything, Julie Newmar (1995, de Beeban Kidron). Outros filmes: Road House (1989, de Rowdy Herrington), Next of Kin (1989, de John Irvin), Point Break (1991, de Kathryn Bigelow), City of Joy (1992, de Roland Joffé), Black Dog (1998, de Kevin Hooks), Donnie Darko (2001, de Richard Kelly), Waking Up in Reno (2002, de Jordan Brady), Keeping Mum (2005, de Niall Johnson), Jump (2007, de Joshua Sinclair), Christmas in Wonderland (2007, de James Orr).

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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Erich Kunzel (1935-2009)

 

Director de orquestra americano (Nova Iorque, 21.3.1935 – Swan’s Island, Maine, 2.9.2009) que esteve à frente da Cincinnati Pops Orchestra desde que foi criada pela direcção da Cincinnati Symphony, em 1977, com o propósito de expandir as audiências na música sinfónica. Kunzel estudou em Harvard e depois na Brown University, tendo sido assistente de Pierre Monteux. O estilo de Kunzel adaptou-se plenamente a esta missão, escolhendo um reportório que ia de Beethoven a Copland, passando pelos Beatles, Billy Joel ou bandas sonoras de filmes da Disney e de James Bond. Erich Kunzel foi convidado a dirigir muitas orquestras, entre as quais a Sinfónica de Boston e os Boston Pops, a Sinfónica de Chicago, de Filadélfia, de São Francisco e de Londres. Desde 1991, dirigiu, no Capitólio, a National Symphony nos concertos do Memorial Day e do Dia da Independência. Recebeu a Medalha Nacional das Artes em 2006. Em 2009 dirigiu os Cincinnati Pops em Pequim, durante as cerimónias de abertura do Jogos Olímpicos.

 

 

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Domingo, 9 de Agosto de 2009

John Hughes (1950-2009)


Argumentista, produtor e realizador norte-americano (Lansing, Michigan, 18.2.1950 - Nova Iorque, 6.8.2009) mais conhecido pela história de Home Alone (Sozinho em Casa: 1990, 1992, 1997, 2002), mas reconhecido também pelo argumento de comédias como Class Reunion (1982, de Michael Miller), European Vacation (1985, de Amy Heckerling), Pretty in Pink, Some Kind of Wonderful e The Great Outdoors (1986, 1987 e 1988, de Howard Deutch), Career Opportunities (1991, de Bryan Gordon), Beethoven 1, 2, 3, 4 e 5 (1992, 1993, 2000, 2001 e 2003, de Brian Levant, Rod Daniel, David M. Evans e Mark Griffiths respectivamente), Miracle on 34th Street (1994, de Les Mayfield), Just Visiting (2001, de Jean-Marie Poiré), Maid in Manhattan (2002, de Wayne Wang). John Hughes escreveu, produziu e realizou Sixteen Candles (1984), The Breakfast Club (1985), Weird Science (1985),  Ferris Bueller's Day Off (1986), Planes, Trains & Automobiles (1987), She's Having a Baby (1988), Uncle Buck (1989) e Curly Sue (1991).

 

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Terça-feira, 21 de Julho de 2009

Frank McCourt (1930-2009)

 

Escritor americano de ascendência irlandesa (Nova Iorque, 19.8.1930 – ibid., 19.7.2009), cuja infância em condições de miséria e doença, na Irlanda dos seus pais, descreveu no seu primeiro livro autobiográfico Angela’s Ashes. No regresso aos EUA, serviu no exército, após o que fez alguns estudos, conseguindo ser aceite na Universidade de Nova Iorque. Após a formação, tornou-se professor de «escrita criativa» no sistema escolar público de Nova Iorque durante quase três décadas. Quando se retirou, escreveu Angela’s Ashes (1996), ganhando o National Book Critics Circle Award, o Los Angeles Times Book Award, o ABBY Award e o Prémio Pulitzer, na categoria de biografia. O livro está hoje traduzido em dezassete línguas. A saga biográfica continuou com ‘Tis (1999) e Teacher Man (2005).

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Domingo, 19 de Julho de 2009

Walter Cronkite (1916-2009)

 

Jornalista americano (Saint-Joseph, Missouri, 4.11.1916 - Nova Iorque, 17.7.2009) cuja carreira se iniciou nos anos 30, tendo chefiado o escritório da United Press, em Moscovo. Foi, depois, um dos primeiros a fazer reportagem durante o desembarque dos Aliados na Normandia. Nos anos 50, Cronkite aperfeiçoa o seu estilo de repórter em directo ao serviço da CBS, vendo a sua crescente fama atingir níveis enormes com o assassínio de John Kennedy, o qual é o primeiro a anunciar ao país. No final da década de 60, é o jornalista respeitado por todos que se declara contrário à Guerra do Vietname e propaga a convicção de que a guerra não pode ser ganha. Logo a seguir, foi ele que relatou em directo a primeira alunagem. Foi ainda o homem em que os americanos mais confiavam, segundo as sondagens, que marcou a opinião pública americana na sequência do caso Watergate, que culminaria com a demissão de Nixon. Em 1981 retirou-se oficialmente (era anchorman da CBS desde 1962), embora tivesse continuado a intervir com assiduidade na comunicação social.

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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Vasily Aksyonov (1932-2009)

 Vasily Aksyonov, Russian dissident writer
Escritor russo (Kazan, 1932 – Moscovo, 6.7.2009) que alcançou proeminência no breve período de abrandamento do regime soviético que se seguiu à morte de Estaline. Os pais tinham sido vítimas das purgas estalinistas de 1937 e Aksyonov passou parte da infância no gulag. Em 1956 licenciou-se em Medicina, que exerceu enquanto florescia a sua vocação de escritor. Inicialmente, o escritor conseguiu sobreviver no interior do regime soviético, alcançando mesmo alguma notoriedade, sobretudo pela suas capacidade estilística, mas tanto a sua atitude pessoal como a sua escrita conduziram-no a uma progressiva dissidência. No romance «A ilha de Crimeia» imagina o que teria sido a vida naquela península do mar Negro se os russos brancos tivessem vencido os bolcheviques. Em 1980, após a publicação em Itália do romance «A queimadura», Aksyonov foi forçado ao exílio nos EUA, onde foi professor e continuou a escrever obras como In Search of Melancholy Baby, onde fala da sua experiência de emigração, The Negative of The Positive Character, uma colectânea de contos, ou o épico Generations of Winter, no qual narra o impacto do estalinismo numa família moscovita ao longo de três gerações e que foi transposto para televisão, na Rússia, em 2004.

 


 

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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Karl Malden (1912-2009)


Actor norte-americano, de ascendência checa por parte da mãe e sérvia por parte do pai, cujo verdadeiro nome era
Mladen Sekulovich (Chicago, 22.3.1912 – Los Angeles, 1.7.2009). Depois de ter feito teatro desde 1937 (tendo integrado a companhia Group Theatre) e de ter chamado a atenção de Elia Kazan, que o dirigiu em peças de Arthur Miller e Tenessee Williams, estreou-se como actor de cinema num filme de Garson Kanin, They Knew What They Wanted (1940). O nome de Malden saltaria para a ribalta com o Óscar para Melhor Actor Secundário, de novo dirigido por Kazan em A Streetcar Named Desire (1951). Em 1954, Kazan coltou a dar-lhe um papel em The Waterfront, pelo qual voltou a ser nomeado. O nome Malden tornou-se, assim, habitual no cinema americano das décadas 50 e 60, facto a que não foi alheio o seu desempenho muito forte de personagens mais ou menos amorais ou duras, e um estilo de representação que se impunha, quer pela vincada personalidade do actor, quer pela sua fisionomia singular e pelo fulgor do jogo fisionómico. Em 1957, dirigiu Time Limit. No início da década de 70, protagonizou uma famosa série de televisão, que o popularizou ainda mais:
The Streets of San Francisco. Regressaria, em 1984, ao protagonismo de outra série: Fatal Vision. Foi um justamente prestigiado Karl Malden que, entre 1988 e 1992, presidou à Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. Em 1999, foi um dos defensores da entrega do Óscar Honorário a Elia Kazan.

Alguns filmes da extensa filmografia de Karl Malden: Winged Victory (1944, de George Cukor), Kiss of Death (1947, de Henry Hathaway), The Gunfighter (1950, de Henry King), Where the Sidewalk Ends (1950, de Otto Preminger), I Confess (1953, de Alfred Hitchcock), Take the Highground (1953, de Richard Brooks), Baby Doll (1956, de Elia Kazan), Fear Strikes Out (1957, de Robert Mulligan), The Hanging Tree (1959, de Delmer Daves), The Great Impostor (1961, de Robert Mulligan), One-Eyed Jacks (1961, de Marlon Brando), All Fall Down (1962) e Birdman of Alcatraz (1962), de John Frankenheimer, How the West Was Won (1962, de John Ford e outros), Gypsy (1962, de Mervyn LeRoy), Cheyenne Autumn (1964, de John Ford), The Cincinnati Kid (1965, de Norman Jewson), Nevada Smith (1966, de Henry Hathaway), Billion Dollar Brain (1967, de Ken Russell), Patton (1970, de Franklin J. Schaffner).

 

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Alexis de Tocqueville (1805-1859)

A propósito da passagem, em Abril passado, dos 150 anos da morte de Tocquville, divulgamos de seguida um texto incluído no último volume impresso de Annualia.

 

Alexis de Tocqueville
por Paulo Tunhas
da Universidade Fernando Pessoa

Não há, apesar das suas aporias, aparentes contradições e efectiva complexidade, ou talvez por causa disso mesmo, melhor guia para entender os tempos presentes do que a obra de Alexis de Tocqueville (1805-1859). Tocqueville foi certamente quem melhor diagnosticou a tendência geral da evolução das sociedades ocidentais, uma tendência marcada pelo advento da democracia e do igualitarismo, em contraste com a diferenciação aristocrática dos tempos precedentes à revolução francesa, mas anunciada já pela centralização administrativa encetada pela monarquia.

 

O método tocquevilliano, tanto nos dois tomos de De la démocratie en Amérique (1835, 1840) como em L’Ancien Régime et la Révolution (1856), é um método de contrastes. Contraste entre as «épocas aristocráticas» e as «épocas democráticas», entre a liberdade e o despotismo, entre a paixão da liberdade e a paixão da igualdade, entre a estabilidade e a instabilidade, entre os Estados Unidos e a França. No centro, apesar de nomeada apenas a espaços, a Inglaterra, aristocrática e livre, mas contendo em si elementos de democracia, responsável, como Tocqueville insiste, por várias tradições que os Estados Unidos viriam a renovar.

Contrastes (bem como semelhanças) encontram-se não apenas no método como no objecto estudado: as sociedades aristocráticas são sociedades de contrastes entre as várias «classes» ou «castas», as sociedades democráticas, adversárias da diversidade, tudo homogeneízam e assemelham. É sobretudo nestas que a atenção de Tocqueville se concentra: as sociedades democráticas, em virtude do impulso centralizador que lhes é intrínseco, e que Tocqueville analisa em detalhe, procedem a uma uniformização e a uma igualitarização de toda a vida comum, que é acompanhada por uma regimentação tendencialmente integral da vida individual e por um concomitante isolamento dos indivíduos, separados de toda a vida política. Movimento geral ao qual a própria linguagem – cada vez mais abstracta e divorciada de qualquer referência concreta – não escaparia. A linguagem abstracta, favorecendo as ideias gerais, é ela própria um poderoso veículo de uniformização e de desatenção ao particular, de substituição da sociedade efectiva por uma sociedade imaginária, esplendidamente indiferente à rugosidade da realidade. A arte dos povos democráticos – Tocqueville tem sobretudo em vista o romantismo francês – exprime na perfeição esse movimento de desrealização do singular e o fanatismo propagandístico que lhe é concomitante. A colocar ainda na lista dos malefícios da uniformização, a perda de qualidade e de individualidade dos artefactos, bem como a degradação do homem, que não se pertence já a si mesmo mas à profissão que escolheu. O próprio conceito de honra, na exacta medida em que supõe, como condição de possibilidade da sua existência, a divisão estratificada dos grupos sociais, tenderia a desaparecer em virtude da uniformização dos comportamentos.

A transformação da sociedade numa superfície plana, inerme e indiferenciada, contraposta a um Estado uno e senhor de todo o poder, mas representando a maioria, exprime o resultado de um movimento inevitável dos povos em direcção à igualdade. «Despotismo democrático»: Tocqueville forja a expressão com toda a prudência, servindo-se do vocabulário tradicional. A coisa é nova, mas Tocqueville recusa-se, em parte por aristocrática desconveniência com a linguagem abstracta, a dar-lhe um nome absolutamente novo. Em todo o caso, o significado é claro: movimento simultâneo de despossessão política do indivíduo e de máxima privatização das suas acções, sabiamente reguladas por um poder tutorial (infantilizador, poder-se-ia acrescentar) e omnipresente, um poder tutelar «absoluto, detalhado, regular, previdente e doce»; paixão servil pelo funcionarismo público (o «desejo universal e imoderado das funções públicas»); glacial homogeneidade e indistinção de indivíduos paradoxalmente isolados uns dos outros, ao mesmo tempo semelhantes e reciprocamente surdos e indiferentes, numa similaridade incomunicante; imersão da sociedade numa mediocridade que tudo nivela; massificação (é, de facto, a palavra que convém) do gosto; tirania da opinião pública; criação de uma sensibilidade universal e untuosa, exprimindo um amor abstracto pela humanidade, um lirismo administrativo dos sentimentos.

Esta tendência natural das sociedades democrático-igualitárias para o despotismo democrático, sendo poderosa, não é, no entanto, fatal. De la démocratie en Amérique mostra como uma série de dispositivos – a descentralização administrativa (compatível com uma necessária centralização governamental), bem como a criação de um conjunto de entidades mediadoras entre o indivíduo e o Estado, e a própria religião (separada do poder político) – pode servir de antídoto ao movimento indiferenciador da democracia e preservar uma liberdade em risco. O essencial reside na divisão do poder social, uma divisão que é natural nas sociedades aristocráticas, mas que manifestamente repugna às sociedades democráticas e niveladoras. A divisão do poder social é a operação fundamental da liberdade, e Tocqueville explora as suas possibilidades em detalhe. O amor da indivisão dos poderes é o amor despótico por excelência, que traz consigo um gosto perverso e funcionário pela uniformidade. Trata-se de procurar a todo o custo que a paixão da liberdade sobreviva à torrente igualitária (notando-se, no entanto, que a paixão da igualdade é ela própria dupla: simultaneamente viril – e, assim, podendo dar aos homens o gosto das instituições livres -- e degradada). Só assim o despotismo larvar do corpo social democrático poderá ser combatido.

Os Estados Unidos dar-nos-iam exactamente o exemplo, necessariamente incerto, imperfeito e perecível, de uma tal preservação da liberdade, que constituiria a «ciência política» (no sentido tocquevilliano de regra da acção pública) dos povos democráticos livres. Convém efectivamente sublinhar este aspecto: Tocqueville não diz nunca que a democracia é, em si, incompatível com a liberdade: apenas diz que, deixada à sua marcha natural, ela tende a obliterar a paixão da liberdade que igualmente a constitui e rapidamente se torna inimiga da liberdade. A liberdade que sobreviverá nela, que ela recriará ao seu modo, será o produto não do instinto igualitário mas da arte humana, da «acção lenta e tranquila da sociedade sobre si mesma», e manifestar-se-á, entre outras coisas, na actividade exercida pelas associações de cidadãos, pela imprensa livre (amada sobretudo pelos males que evita) ou pela autonomia do poder judiciário. A tendência à divisão e a tendência à união devem coexistir, em estado de equilíbrio, e o federalismo exprime esse equilíbrio. São ainda indispensáveis à arte da liberdade a defesa dos poderes comunais, essenciais na criação do espírito de liberdade (o espírito, tal como os costumes o traduzem, é mais importante ainda do que as leis) e o respeito pelos formalismos e pelos direitos individuais. Tal arte – uma arte que muito deve à herança inglesa da liberdade -- consistirá, entre outras coisas, em fazer com que o homem não mergulhe absolutamente na esfera privada, na esfera do individualismo, e venha a interessar-se, não por instinto, mas por reflexão, pela coisa pública. O célebre «interesse bem entendido» de que fala Tocqueville, o amor esclarecido de si mesmo («doutrina pouco elevada, mas clara e segura»), servindo de antídoto ao individualismo democrático, participa desta arte.

Numa língua de uma perfeita beleza e extraordinária acuidade, cruzando a Filosofia política – uma filosofia política alicerçada numa antropologia das paixões --, a História e a Sociologia, dotado de uma excepcional capacidade prognóstica, Tocqueville é, como se disse anteriormente, o melhor guia possível para a sociedade contemporânea. Ninguém como ele previu (e antecipadamente descreveu) o advento de um Estado tutelar e minuciosamente inquiridor dos actos privados dos indivíduos – não de uns poucos, como nas tiranias antigas, mas de todos --, um Estado preceptor, cioso de decidir por nós o que nos convém e desconvém, o benéfico e o contraproducente, sem ter em conta os nossos desejos e vontades. Sem poder adivinhar os horrores mais radicais do século xx, Tocqueville pôde, no entanto, conceber o que mais se assemelha ao totalitarismo no contexto dos doces humores democráticos: a abdicação da liberdade de pensar e agir, a subordinação maciça à «opinião pública», a vitória da servidão inspirada pela paixão absorvente da igualdade, muito mais poderosa do que a paixão da liberdade. Isso e o esquecimento militante do passado e da tradição em benefício exclusivo de um presente imediato e irreflectido, fechando cada homem no interior do seu próprio coração, comandado apenas pelo desejo «ardente, tenaz, contínuo» (pensar-se-ia ler Hobbes) de avançar; e, ao mesmo tempo, uma «indiferença completa e brutal em relação ao futuro». Mas pôde igualmente, sobretudo no seu retrato dos Estados Unidos – simultaneamente indício dos tempos a vir e parcial solução para os males desses tempos --, sugerir a possibilidade de, no seio da democracia, a humanidade poder manter um módico de liberdade resistente à paixão da igualdade. Se o caminho para a igualdade é inexorável, convém a todo o custo que lutemos para minimizar as suas mais terríveis consequências. No fim de contas, o desenvolvimento dos costumes e das instituições democráticas é o único meio que nos resta para permanecermos livres. Um retorno – impossível, de resto -- à aristocracia, obrigar-nos-ia a algo inaceitável: «fundar a desigualdade em princípio».

A acabar. Uma evocação, mesmo que breve, de Tocqueville, não pode deixar passar em silêncio esse livro maravilhoso, os Souvenirs (escritos em 1850-1851 e publicado postumamente), onde são retratadas as jornadas de 1848 e a sua passagem pelo Ministério dos Estrangeiros sob Luís-Napoleão. Talvez mais ainda que nas outras obras, toda a sensibilidade de Tocqueville à maneira como as instituições do passado vão perdendo sentido, ou se vêem afectadas de sentidos novos, se exibe na perfeição. Um livro que não contém uma só linha que seja banal e não ilumine um ou outro aspecto da história e dos motivos da acção humana.


 

publicado por annualia às 15:32
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