Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Prémio Pessoa 2009/ D. Manuel Clemente

Relações entre os portugueses e Portugal

por D. Manuel Clemente

 
 

É habitual insistir-se na nossa infinita capacidade de adaptação,

seja aonde for. Pergunto-me se não se trata ante do contrário. Se não devíamos

falar até da impossibilidade de deixarmos de ser quem somos,

tal a densidade interior que acumulámos.

 

Primeiro andamento.

Relações pouco nítidas, talvez, mas nem por isso menos fortes, as que nós, o portugueses, mantemos com Portugal. Como se este fosse outra coisa do que nós realmente somos, apesar do distanciamento impossível que gostamos de manter com ele, ou com o que a sua nomeação evoca.

Até ao século XVI fomo-nos garantindo e definindo. Primeiro a Reconquista, como lhe quisemos chamar. Com ela o repovoamento do território, numa mescla de mouros e judeus, moçárabes, galegos e nórdicos, que prefaciou as futuras. A seguir, a definição de um País, como a acabaram por fazer os monges e os cronistas, de Alcobaça e Santa Cruz a Fernão Lopes e Zurara. Depois de 1578 (Alcácer-Quibir), fomo-nos perdendo e restaurando ciclicamente: entre 1580 e 1640; entre 1820 e 1910; entre 1910, 1926 e 1974: desde o fim de Oitocentos, cantamos ser preciso “levantar hoje de novo o esplendor de Portugal”.

 

Um difícil testamento.

Digo, por isso, que a relação que mantemos com Portugal é, fundamentalmente, bíblica. Olhamos Portugal como uma personalidade colectiva portadora duma alma, no sentido romântico do termo, ainda que referido a algo muito anterior ao Romantismo. E a relação que mantemos com esse gostoso e custoso colectivo vem na esteira dum outro povo, que se descobriu eleito e portador duma missão universal.

Não foi certamente por acaso que a primeira teorização da pátria portuguesa em torno duma promessa divina nasceu em meio monástico, nos cronistas de Santa Cruz de Coimbra, tão ligados que estavam ao seu patrono da havia dois séculos, D. Afonso Henriques. E a um acontecimento, cuja significação foi engrossando: a batalha de Ourique (1139), prodígio divino que nos séculos XV e XVI se circunstanciou na promessa de Cristo ao nosso primeiro rei: fundaria um reino tão imortal como a sua origem e com idêntica projecção religiosa.

É verdade que, com a alusão vetero-testamentária dos reis e destinos messiânicos, se juntava uma outra, a do império “cristão”, tal como a contava a legenda da promessa divina a Constantino, duma vitória conseguida sob o signo da cruz. Mas a segunda já for a uma reconstrução romana da epopeia judaica, possibilitada por um Evangelho que universalizara a promessa. 

Camões assim o assinalaria n’ Os Lusíadas e Vieira retomou o motivo, para assegurar com ele a certeza e o significado da Restauração: Portugal como esteio do Império de Cristo na terra, finalmente realizado, numa humanidade que só agora divisara os seus contornos, através precisamente das nossas descobertas.

O ouro joanino pôde ainda manter-nos contentes connosco, tanto quanto. A dissolução geral do Portugal antigo, entre as Invasões Francesas (1807 e seguintes) e a Regeneração (1851), esvaziou quase por completo a substância de que se alimentara a nossa auto-representação. E roía-lhe especialmente a substância religiosa de que se alimentara, em tantas crónicas, sermões e discursos. Sobrava o contraponto dos espíritos práticos que, de quando em quando, tinham proposto desígnios mais próximos e quantitativos.

De Oitocentos para Novecentos, vivemos como os Judeus regressados do exílio babilónico, divididos entre os trabalhos do campo e a reconstrução do templo, o pragmatismo e o sonho (cf. O livro do profeta Ageu, cap.1). Vivemos geralmente mal com nós mesmos, por nos acharmos sempre aquém do que teríamos sido ou do que poderíamos voltar a ser … Há nisto algum auto-ressentimento, independentemente da nossa extracção religiosa ou não-religiosa. Todos nos embebemos dum Portugal que não achamos.

 

Uma estranha geografia.

E tanto assim é, de facto, que pouco importa a base territorial que nos recorte. A nossa relação com Portugal não é verdadeiramente geográfica. Ainda aqui contará a fortíssima herança judaica, nómada por excelência. 

Antes de mais, na sua própria consciência circunscrita. É frequentíssimo encontrar portugueses sem ideia precisa da localização de terras, rios ou montanhas nossas. Frequentíssimas as confusões de caminhos e distâncias, não sendo estas as mesmas no Minho e no Alentejo. E isto mesmo seria de estranhar num povo que tão habilmente se instala em qualquer parte do mundo, como se já fosse casa sua.

Digo seria, porque realmente não o é. Mais do que o “Brasil mental” de que falava Bruno, “mental” é o Portugal em que idealmente nos figuramos, depressa suportando qualquer geografia física. Em meados de Duzentos reconquistou-se o território básico, “onde a terra acaba e o mar começa”. Mas nem esse nem as ilhas atlânticas nos concluíram nunca. Ainda hoje temos outra geografia: quinze milhões repartidos em cinco alíneas: a) da cordilheira central para Norte; b) daí para Sul; c) Açores; d) Madeira; e) emigração. E cada uma destas muito subdivididas, obviamente. Só que, qualquer beirão ou açoriano, qualquer alentejano ou madeirense, pode ter a sua geografia verdadeiramente pátria noutro recanto do mundo, coberto ou descoberto pela bandeira nacional.

Dois episódios, entre tantos de geografia portuguesa: em Paris, na casa dum emigrante abastado e bem sucedido e bem integrado na sociedade francesa, quando a única coisa que me quis verdadeiramente mostrar foi a horta que cultivava no quintal, absolutamente lusitana; em Cochim, onde não estamos politicamente há tanto tempo, quando o seu falecido bispo, sem uma gota de sangue nosso e nenhuma palavra nossa também, me mostrou embevecido o arquivo que conseguira montar, cheio de documentação portuguesa, que obviamente não lia. Naquele quintal parisiense ou nesta costa do Índico, foi com Portugal que me relacionei, fora da geografia convencional.

É habitual insistir-se na nossa infinita capacidade de adaptação, seja aonde for. Pergunto-me se não se trata ante do contrário. Se não devíamos falar até da impossibilidade de deixarmos de ser quem somos, tal a densidade interior que acumulámos. Não temos de nos adaptar por aí além, por que já temos dentro e acumulados os infinitos aléns que nos formaram. Aqui, neste recanto ocidental do Continente, sedimentaram-se, milénio após milénio, os variados povos que, do Norte de África ou do Leste da Europa, tiveram forçosamente de parar numa praia que só no século XV se transformou em cais de embarque. Aqui chegaram outros que depois vieram e continuam a vir das mais diversas procedências. Tanta gente em tão pouco espaço só pode espraiar-se numa geografia universal. Assim foi e assim é. Por isso também, se é verdade que muitos outros povos manifestam capacidade variável de adaptação fora da sua terra, nós manifestamos algo de endógeno que já não é propriamente adaptação, antes conaturalidade.

António José Saraiva comparou-nos a um fruto mole na casca e duro por dentro. Tinha razão: temos por dentro muitíssimo mundo, consolidado em sucessivas experiências, em que a convivência acabou por ganhar às lutas. Por isso concentrámos geografias, para as maleabilizar depois. E será talvez sob este aspecto que melhor nos damos com Portugal.    

 

 

A poesia como reconhecimento.

Compreende-se assim que o melhor Portugal seja poético, ou seja, mais feito do que construído, mais desligado da prosa e das contas. Melhor porque maior, só assim o podendo ser, sem restrição geográfica. Com tanta água territorial, o mais de Portugal é mar…

Talvez por isso mesmo, a melhor ideia que temos de nós próprios provém da poesia e não da prosa. Desta última guardamos sobretudo o que nos distancia de nós próprios, entre a ironia e o sarcasmo. Pensamo-nos mais altamente à maneira de Camões do que à maneira de Eça. Ou, deste último, recolhemos as páginas mais “poéticas” que nos dedicou n’ A Cidade e as Serras.

Ou seja, quando nos relacionamos bem com Portugal, fazemo-lo com um País mais sentimental do que mentalmente definido, como se a espuma das ondas nos toldasse a visão. E tanto assim é que o nosso próprio movimento – terrestre que seja – continua a ser marítimo, mesmo para quem nunca sulcou as ondas: estamos sempre a “embarcar”, como se a viagem mais trivial se sublimasse também. Até as nossas serras têm “naves”…

É da poesia que advém ainda a nossa permanente disponibilidade para o milagre. O “milagre português”, no caso. Não há época da nossa história em que tal não aconteça, emblematicamente. É certo que, para a Fundação, o “milagre” de Ourique é projecção posterior, como foi ultimado. Mas, mesmo um autor tão rigoroso e detalhado como Fernão Lopes, se espanta e nos espanta com o “milagre” de Aljubarrota ou de Nun’Álvares. Para a Restauração, sobretudo, tudo é “milagroso”, das profecias de Bandarra ao futurismo do Padre António Vieira. E daí para cá, não faltaram prenúncios nem salvadores, mesmo em tempos mais razoáveis e pragmáticos. Continuamos absolutamente disponíveis, uma vez que qualquer concretização ainda será pequena para o tamanho que demos à memória. Nascem daqui as “saudades do futuro”, que vários escritores nos atribuíram, certeiramente aliás.    

 Daqui provêm também duas caracterizações: o nosso tempo é descontínuo; a nossa relação mútua pode desapontar-nos. O tempo contínuo e programado é próprio de sociedades previstas e de longo prazo. Também o temos, decerto. Mas creio ser frequente ouvirmos expressões que abrem antes para a surpresa ou o devaneio, na projecção dos dias. É um velho debate, que importa retomar em termos diferentes de há um século. Mas é bem possível que o singular percurso histórico que nos moldou, com tantos momentos inesperados, nos tenha tornado pouco propensos a uma consideração linear do devir pátrio ou mesmo pessoal. Igualmente nos decepcionamos facilmente quando constatamos que os outros ficam aquém dos modelos com que os prevíamos. Em Portugal – sem que tenhamos disso o monopólio – é fácil ser-se tudo hoje e quase nada manhã. Mas também é fácil que tudo acabe por se relativizar, pela mesma indefinição dos contornos e esvaimento do concreto que se referiu acima.

Aliás, oscilamos entre a beleza das coisas pequenas e uma persistente disponibilidade para os grandes momentos. Um certo “regresso ao campo”, de fim-de-semana, férias ou reforma; a inesgotável popularidade dos filmes de há sessenta anos; o reencontro do artesanato; a constante utilização do sufixo “inho/a”, mesmo nas coisas mais utilitárias e prosaicas: tudo nos reencontra num certo “Portugal dos pequeninos”, oxalá próximo da primeira bem-aventurança. O imenso gosto pela festa como interrupção das linearidades traz-nos um devaneio que suporta o dia a dia. Aliado a algum sentido prático, tem originado empreendimentos criativos e consequentes, que vão muito além de ocasionais recordes de Guiness, prémios de inventores e registos de patentes.  

 

Curiosas figurações.

Um bom indício do modo como nos relacionamos com Portugal são as nossas auto-figurações, as feitas e as por fazer. Quanto às feitas, reparemos em duas, uma popular e outra erudita.

A popular é certamente o Zé Povinho. Desde que Bordalo a pintou, foi constantemente reproduzida e encontramo-la em todo o lado. Mas que significa ao certo? Ignorância ou esperteza? De tudo um pouco, como se tem dito e escrito, em análises rápidas ou de maior fôlego. Mas é exactamente nessa indefinição que ela pode servir para caracterizar a relação que mantemos com nós mesmos, ou com o País no seu todo. Coexistimos uns com os outros – e, cada vez mais, com os estrangeiros - em subalternidade e atraso, ou em esperteza, razoável desconfiança e quase “retranca” galega?

A erudita encontra-se nos painéis de Nuno Gonçalves. Quando foram, também eles, “descobertos”, logo atraíram como um íman uma atenção crescente e vivaz. Passou um século e continuam a olhar-nos, com aquelas dezenas de olhos que nos perscrutam e avisam, não sabemos bem de quê. Nunca uma obra de arte nos interrogou tanto, motivando sucessivas interpretações, tanto dela como nossas. Interpretações, aliás, que aparecem quase como urgentes, para decifrarem finalmente um enigma que é existencial e de nós todos. Como se Portugal de depreendesse dali, como “mensagem”, para falar segundo Pessoa, ou como “navegação”, para falar segundo Sophia…

Mais enigmaticamente – ou sintomaticamente – há auto-figurações não feitas. Escolho uma, por demais eloquente: a estátua que nunca se colocou no pedestal do alto do parque Eduardo VII. Fosse ou não para Nun’Álvares / Santo Condestável, tratar-se-ia sempre dum “umbigo de Portugal”, quase como o de Delfos fora o do Mundo. Detecta-se uma polémica muda em torno daquele lugar vazio, daquele pedestal agora desfeito. Como se já não tivéssemos figuração possível. Como se a relação com Portugal já não lhe encontrasse rosto.

Aqui chegámos, finalmente. Mais como interrogação do que como certeza. Vamos andando, apesar de tudo. E, muito à portuguesa, “depois se verá”. O que também é já um grande saber de experiência feito.

 

Este texto foi originalmente publicado no volume Annualia 2006-2007 (Verbo, 2006) e reproduzido depois em Portugal e os Portugueses (Assírio & Alvim, 2008).

 

publicado por annualia às 15:49
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