Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

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Há alguns anos, observei umas estudantes de letras que tentavam abastecer-se, numa livraria, de livros exigidos na bibliografia de uma das disciplinas do curso. Confrontadas com um dos títulos da lista, um livro de certo poeta português, uma delas prontamente afastou a hipótese de aquisição, defendendo que aquele não era necessário ler por não ser provável que algum dia, no seu previsível futuro de professoras, tivessem de «dar» aquele autor. Não seria preciso, pois, ler um autor que não constasse dos programas.
Este episódio, entre outros, familiar a quem me conhece há muito, serviu-me ao longo dos anos para ilustrar a cada vez menor distância entre o que os professores sabem e o que ensinam, isto é, que eles tendem a saber (partamos do princípio que sim) apenas o que têm de ensinar.
Vive-se, hoje mais do que nunca, na devoção a um saber «útil», no sentido instrumental, que serve alguma finalidade previamente estabelecida. Ainda há pouco tempo, dei casualmente conta de uma jovem de aspecto triste e anódino que lia um livro cuja sinopse promete ao leitor «doses maciças de estímulo» para ele se elevar «acima da mediocridade». Até a pura distracção aparece, ela própria, como uma função utilitária, que boa parte da ficção se presta a desempenhar.
Daí que a poesia esteja (ainda mais) atirada para o canto das inutilidades. De facto, a poesia não é «instrumental», como uma chave de parafusos o é. «O poema é antes de tudo um inutensílio», disse o poeta brasileiro Manoel de Barros.
A «utilidade» que um leitor for capaz de encontrar na leitura de livros «inúteis» continua a ser um dos grandes fascínios da leitura: não uma utilidade instrumental, mas um eco que o repassa, como se fosse o primeiro e único leitor de cada um deles. Como se tivesse descoberto, por si e só para si, a senha do singular acesso ao que Raul de Carvalho descreveu como «a santa clareza com que os Poetas falam nas trevas das coisas mais escuras.»
Convido todos a abastecerem-se, ao longo destes dois últimos dias da feira do livro, de alguns livros inúteis.


 Jorge Colaço

 

publicado por annualia às 23:25
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009

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Gostaria hoje de pôr em destaque a importância e a utilidade das antologias. Antologia significa, etimologicamente, «colecção de flores» e aplicou-se, por extensão, a colecções de textos seleccionados de uma época, de um género, de um autor e até de uma só obra. Entre nós existe o termo «florilégio», hoje praticamente caído em desuso, e os espanhóis usaram e usam a expressão «flores» (de poesia, por exemplo) com o mesmo significado. Também já se usou o termo «crestomatia», igualmente de origem grega, para designar o que hoje é mais comum designar por ou colectânea. Aos volumes em que se recolhem textos seleccionados com fins didácticos já se chamou «selectas». Em língua inglesa, vingou a tradição dos volumes de textos «selected» ou «collected». Em francês, existe a expressão «textes choisis», que tem sido também traduzida e adoptada entre nós.
Interessa salientar que em qualquer dos casos estes volumes têm um valor de «selecção» ou «escolha», constituindo por isso uma «amostragem» e adquirindo um sentido iniciático, espécie de pórtico (estaria mais na moda se dissesse portal) de entrada num determinado universo textual mais extenso.

Sendo uma selecção ou escolha, as antologias são organizadas por alguém, a quem o editor confiou esse trabalho e em quem o público deverá reconhecer capacidade, que usa determinados critérios, de preferência bem explicitados, de gosto e/ou de representatividade. Embora este último seja o critério geralmente predominante, alguns antologiadores deixam marcas muito pessoais nas suas escolhas ou adoptam perspectivas diferenciadoras. O caso mais flagrante é «antologia das vozes comunicantes da moderna poesia portuguesa», que Herberto Hélder organizou em tempos para a Assírio e Alvim com o título Edoi Lelia Doura. 

Por tudo isto se deverá entender que antologias são obras da maior utilidade e que constituem uma tradição editorial antiga, da qual nem sempre os editores têm sabido tirar pleno partido. É que a salutar e necessária existência no mercado das obras integrais não retira pertinência às antologias. As mais variadas. Nesta feira do livro, redescubra as antologias.

 

 Jorge Colaço

publicado por annualia às 15:59
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

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Existe, nos tempos que correm, um visível, talvez até palpável, menosprezo, se não mesmo desprezo, por tudo o que releva de uma dimensão intelectual. Nada de novo, mas que por vezes assume contornos inquietantes.
Este lastro negativo corresponde, em parte, ao triunfo ufano do que é superficial e raso, que hoje se funda na desmemória e na ideia velha e obtusa de que pensar é a mais vã das actividades. A categoria do «mental» é literalmente insubstancial. O intelectual, como o poeta, tornou-se risível. Só a inércia justifica o relevo e a reverência remanescentes. A verdade é que em diferentes instâncias da nossa vida pública e privada se instalou, ou, estando já instalada, se reforçou, uma indisponibilidade para pensar.
Em certos meios, o que não se tolera no intelectual já não é tanto o ser de esquerda ou de direita, conservador ou vanguardista, militante ou descomprometido, artista ou simplesmente tonto, mas sim o facto de ser intelectual. As ideias passaram ao domínio do intolerável, elementos de uma conjura que teima em complicar o que é simples, que insiste em ver nublados os céus limpos.
A actividade intelectual incomoda o mundo descomplicado do pronto-a-pensar, sobretudo quando se afirma pela liberdade de espírito, a sua energia fundamental, e sonda as dificuldades, contraria as convenções, ou se insinua no avesso das conveniências, dos hábitos, dos gostos, ou das ideologias.
É precisamente na dimensão intelectual e no gosto de pensar que se funda o ensaísmo. Pelo menos o verdadeiro ensaísmo. Talvez por essa razão nunca criou fundas raízes entre nós e se foi progressivamente transformando em género raramente praticado e publicado. Falo de ensaísmo, não de teses ou estudos universitários, obrigados a um certo número de rituais e procedimentos. Falo de um pensamento cuja identidade é indesligável da sua formulação, que faz do ensaísta um escritor.
Curiosamente, o escritor (expressão que corresponde no português actual a romancista ou, mais exactamente, a autor de romances) não é geralmente tido por intelectual. Alguns esforçam-se mesmo por não o parecerem. Por outro lado, não há muito tempo ouvi um «programador cultural» de créditos firmados afirmar que «só lê ficção». Pois é.
Felizmente, o ensaio ainda não desapareceu por completo da edição portuguesa e a feira do livro é um bom lugar para o descobrir.
 

 

Jorge Colaço

publicado por annualia às 00:12
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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

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Ao que parece, não existe hoje um público leitor/comprador de livros de contos. Sendo assim, também não há quem os publique. Provavelmente, também não há quem os escreva. Imagino várias razões para que isto aconteça, mas uma surge com particular evidência: o conto é uma arte difícil. Porquê? Porque é mais «fácil» escrever um romance do que uma história breve. Pondo o dedo na ferida: é mais fácil (e mais rápido) escrever muito do que escrever pouco.

O conto exige uma dupla contenção. Em primeiro lugar, na arquitectura da história, desbastada do que não seja essencial para situar, desenvolver apenas na justa medida para tirar um determinado efeito: poético, absurdo, enigmático, exemplar, o que for. Em segundo lugar, a contenção da escrita. Tudo tem de ser dado de uma forma concentrada, encontrando na personagem e na paisagem um traço essencial mas suficiente para estabelecer um contrato de cumplicidade com o leitor. É que a arte do conto é exigente, tanto para quem escreve como para quem lê. Dá trabalho a ambas as partes.
Atribui-se a Drummond a frase «escrever é a arte de cortar palavras», certeira formulação de um lema que não é propriamente novo. Já Boileau tinha escrito: «Si j'écris quatre mots, j'en effacerai trois». Eis um procedimento que reclama tempo e meditação. 
As colectâneas de contos, tão frequentes noutro tempo, quase desapareceram por completo. Praticamente todos os grandes romancistas escreveram contos, depois coligidos ou antologiados, exercitando assim um género que está para a grande narrativa como o desenho está para a pintura. E sabemos todos como pintam os artistas que não sabem desenhar. 
Seria fastidioso, porque todas as listas são fastidiosas, enumerar os grandes contos ou os grandes contistas da literatura universal, nem sei se é ainda possível descobrir na feira do livro muitas das velhas ou não tão velhas antologias. De qualquer maneira, é certamente possível redescobrir os mestres contadores de língua portuguesa (Machado de Assis, Trindade Coelho, Torga, João de Araújo Correia e muitos outros que injustamente aqui não cabem), até porque algumas das suas colectâneas são obras fundamentais, como a Léah de José Rodrigues Miguéis, O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca, as Histórias Castelhanas de Domingos Monteiro, de novo apenas para referir uns poucos. 
Escrevia há pouco tempo Alberto Manguel que «por absurdas razões comerciais, as editoras decretaram que os contos não se vendem», acrescentando, porém, que, apesar disso, eles continuariam a ser escritos e lidos «talvez porque, na sua precisão clássica e modesta, permitem que concebamos a insuportável complexidade do mundo como uma íntima e breve epifania.»

 

 

Jorge Colaço

 

 
publicado por annualia às 14:26
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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

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Ontem, primeiro dia da feira do livro, uma jovem que viajava no mesmo autocarro em que eu seguia, manifestava ao telefone a sua imensa felicidade por ter acabado de enviar o seu primeiro romance a um concurso (de romances, imagino). O entusiasmo da jovem, que não teria mais de vinte e um ou vinte e dois anos, era visível, apesar de contido nos limites de uma aparente serenidade. Percebia-se que era estudante universitária, por razões que não vêm ao caso explicar, mas que se prendem com o facto de as pessoas, e não apenas os jovens, falarem hoje publicamente ao telefone sem pudor de imporem a sua intimidade a quem, por mero acaso, as rodeie. A emoção do nome impresso, e a projecção nele de toda uma família de expectativas, transparecia de forma tocante na voz e na expressão da rapariga, que acrescentou, como quem tira um dia ao calendário das ambições, só lhe faltar agora plantar um árvore e fazer um filho. Infelizmente, o interlocutor não reconheceu o lugar-comum.
Pouco depois, num primeiro passeio pela feira, ainda meio aberta, meio fechada, pensei, à medida que os meus olhos se abismavam no prodigioso espectáculo a que a ficção hoje se entrega, em que língua teria escrito a jovem do autocarro o seu romance. Não me entendam mal, ela certamente usou a língua materna. Mas que parte dela?
A língua é uma pátria longínqua. Perdida na sua própria grandeza, estreitou-se. A vigorosa variedade vernacular cedeu às pressões do uso comum, da preguiça comum, da ignorância comum e do comum descaso. E, neste minguado território, quase se perdeu a noção de que, para se escrever bem, não basta arrumar ordeiramente as palavras nas frases.
Lembrei-me, depois, de uma observação de Paul Morand num prefácio às Lettres Persanes, deMontesquieu: «un vrai roman s’écrit avec ce qui nous manque, avec ce qui nous fait souffrir». Se isto é verdade (e o comentário não se dirige à jovem do autocarro, a quem desejo êxito), são cada vez mais raros os verdadeiros romancistas.


Jorge Colaço

publicado por annualia às 12:55
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