Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

OPINIÃO: Diário Quase Completo


As lembranças de Sião:
uma leitura de Diário Quase Completo, de João Bigotte Chorão

por Jorge Colaço
 
 
 
 
Diários há que exprimem uma fidelidade aos dias e aos gestos, minuciosos registos de existências. Há outros que, atentos aos mesmos dias e gestos, exprimem acima de tudo uma fidelidade ao espírito, não se prendendo apenas à superfície rugosa das circunstâncias, embora também delas emanando. Não se estranhará, pois, que a leitura de um desses diários, em que sobretudo emerge uma voz feita de regressos a si própria, invoque, como referência, a instância poética.
Não porque «de todos os géneros literários, nenhum mais híbrido do que o diário» (pág. 38), podendo nele caber até o poema, em prosa ou não, mas pela natureza fragmentária da forma e pela pouca sedução pelos sistemas que faz com que o autor dos diários de Diário Quase Completo (Imprensa Nacional, Lisboa, 2001), afirme «Quero-me antes com os poetas» (pág. 114). A voz que atravessa a prosa, límpida e vigiada, de João Bigotte Chorão, revela-se lírica pela rede de intensidades que estabelece (de algum modo afins das fulgurações poéticas ou das formulações aforísticas) e que o espírito vai envolvendo, religando e dando continuidade, como música íntima e paradoxal, simultaneamente feita de esperanças e de fundamentais angústias. É a tentativa de encontrar os movimentos dessa música de fundo, que supera as diversidades e adversidades do tempo e dos tempos, que me dá fundamento para abordar aqui a obra sem atender às suas naturais divisões.
Há, na prosa dos diários de João Bigotte Chorão — de assinalada filiação torguiana, pelo despojamento: «A preocupação da sinceridade nunca deverá compelir-nos a publicar o que é estritamente reservado» (pág. 49) —, uma dupla presença de ressonância camoniana.
Em primeiro lugar, porque Camões nos surge como constante poética de uma vida, matriz cultural e pessoal: «não o poeta oficial, o património colectivo, mas o meu poeta, património individual» (pág. 555), «santo da minha devoção» (pág. 543).
Depois, porque essa matriz é também a «da decadência, do desastre, do desconcerto do Mundo», temas caros à reflexão de João Bigotte Chorão, e capaz de inspirar «todo um sentimento trágico da vida», a que só Unamuno saberia dar completa expressão filosófica e cujo imperativo o Autor sente como essência necessária ao homem, ao escritor e ao cristão.
É de Sião que João Bigotte Chorão se lembra na desolada Babilónia das noites inquietas. É a Sião que aspira na «árida solidão» de Babilónia (pág. 142), mundo degradado, caído, mundo dessacralizado, confuso por fora e por dentro seco (vejam-se a título de exemplo as entradas relativas aos sucessivos Natais) — e, como no texto camoniano, Sião é aqui, de uma vez só, um tempo (pessoas, valores, livros, autores, objectos) quase irrecuperável nas ruínas do presente, mas também um futuro, mais além, «alta torre» à qual, como o poeta, não pode ascender sem o auxílio de Deus, fidelidade maior, simultaneamente problema e solução.
Porém, se em Camões é a vida vivida que fala, no Diário de João Bigotte Chorão a vida é sobretudo a meditada no recolhimento e inquietação interiores, vida espiritual. Se em Camões fala o homem de acção e de experiência, aqui fala sobretudo o leitor (de cartas, memórias, diários, livros, documentos, testemunhos: «Na obra procuro sempre o autor. E conhecê-lo, conhecer o seu rosto, interessa-me tanto como conhecer as suas ideias», pág. 113), o escritor, o espectador. Camões terá podido conjurar o desgosto da vida através da arquitectura heróica da epopeia lusa. Ao Autor, resta-lhe fazer ressurgir, com cuidados de arqueólogo, pedaços de Sião perdido, perseguir vivazes lembranças de Sião nas ruas de Babilónia. E a única epopeia possível é a do Eu, a única aventura heróica a da resistência do Eu, em busca de um eco («E é na esperança de encontrar eco para o meu grito que tiro da gaveta o diário», pág. 143), de uma afinidade, de uma partilha, «apesar de todo o silêncio» (pág. 117), epopeia da «extraordinária aventura de escrever» (pág. 117), sotto voce, anti-epopeia portanto, apenas fidelidade a si mesmo.
Figuração de diária resistência interior, o Diário de João Bigotte Chorão vai traçando um itinerário de «vozes fraternas» que falam «da mesma angústia, tornando assim menos solitária a nossa solidão» (pág. 124), fazendo surgir a nossos olhos da primeira à última página uma verdadeira e aristocrática «família espiritual» consagrada pela admiração literária e artística, sem outro compromisso que não seja a adesão a um estilo literário, a um fulgor intelectual, a uma visão do mundo, a um universo de valores, ou, ainda, à grande âncora da amizade.
Vão-se destacando as figuras deste convívio exigente, tão diversas entre si, mas ardendo em idêntico lume dramático. Papini: «escritor…multifacetado» (pág. 15), León Bloy : «Com Bloy, desço aos abismos onde as trevas me cegam e subo aos altos cimos onde a luz me cega também.» (págs. 412-413), Julien Green: «Chaque homme dans sa nuit... Como não estremecer diante desse espelho que nos devolve a nossa inquieta imagem?» (pág. 158), Unamuno: «tão vasco e, no entanto, salmantino, tão salmantino e, no entanto, espanhol, tão espanhol e, no entanto, universal» (pág. 383), Jünger: «o último dos patrícios ou o último dos aristocratas» (pág. 528), Vintila Horia: «Eis um homem com o qual me posso entender: ele está exilado da sua terra, eu estou exilado na minha» (pág. 100), Soffici: «escritor que foi sempre, mesmo quando escrevia, pintor» (pág. 231), Prezzolini: «atraiu-me logo a mente clara [...] e aquele seu modo impertinente, que parece quase cínico, de pensar e de escrever» (pág. 366), Miguel Ângelo: «A pintura é na verdade coisa mental, e na obra de Miguel Ângelo tanto se admira o génio do artista como a audácia do pensamento» (pág. 135), Rouault: «a arte religiosa de um tempo de violência e de tragédia» (pág. 538), Almada: «junto de quem nos sentimos inteligentes por contágio, ou estúpidos por contraste» (pág. 105), Bresson: «diálogo entre a luz e a sombra, o ruído e o silêncio, o dizível e o inexprimível» (pág, 449).
E, claro, Camilo: «Não, não pertenço a nenhuma família política ou religiosa. Sou um viajante solitário, sem compromissos nem dependências de grupos. (…) Se pertenço a alguma família, é à família camiliana.» (pág. 540), Tomaz de Figueiredo: «amigo e mestre» (pág. 470), Francisco Costa: «A literatura foi nele a expressão, ao mesmo tempo inteligente e culta, da vida» (pág. 436), João de Araújo Correia: «escritor solitário», um «patriarca» (págs. 193 e 357), Torga: «Torga foi um dos mais belos capítulos da minha vida, pela atenção e estímulo da sua parte, pela admiração e fidelidade da minha parte»» (pág. 526).
Mas também Pascal, Corção, Gide, Goya (o Goya dos Caprichos), Montherlant, David Mourão-Ferreira, Cioran, Camões: «Camões, Camilo, Cioran — o poeta do desconcerto, o novelista da fatalidade, o pensador da decadência — são os autores cuja companhia me é, singularmente, salutar.» (pág. 433),
                A capacidade de admirar é, aliás, um aspecto importante, que o autor de Camilo Camiliano e de O Essencial Sobre Camilo reclama para si e sem a compreensão do qual a leitura do seu Diário fica irremediavelmente ferida («A minha arte poética: pôr no que escrevo, não o que detesto, mas o que amo», pág. 113). Em Cioran, por exemplo, releva entre tudo os Exercices d’admiration (págs. 530-531), que a seus olhos de algum modo atenua o niilismo de outras obras, mais cruas, mas ainda assim admiradas pelo desafio do paradoxo e pelo recorte da prosa, expressão de um ‘amor da literatura’ que já tive ocasião de salientar noutro lugar (Cf. Brotéria, vol. 149, Julho de 1999). Admirações que são também dívidas, como as que mantém em relação à cultura italiana (pág. 80), à qual se sente atavicamente ligado.
               Admirações que obrigam, que impõem responsabilidades intelectuais. Em Abril de 1977 (pág. 301), incansável epistológrafo à rebours desta Babel de palavras ao vento, anota a recepção de uma carta de Mircea Eliade, outro dos 'latinos do Oriente' com quem contacta, que lhe revela a existência de um diário português inédito, aqui escrito durante os anos de guerra. A demanda desse manuscrito, movido pelo desejo e pelo dever de 'trazer à luz', de 'dar a conhecer', só haveria de terminar um quarto de século depois, com a sua publicação em outro país, de algum modo o preço da «nossa indiferença, ou quase indiferença» (pág. 408)*. Pequeno país, demasiado pequeno, para tanta História.
Admirações que, no seu conjunto, constituem uma viagem a territórios da cultura e da literatura sobre os quais caiu ou vai caindo o largo manto do silêncio, viagem a um mundo cujo desaparecimento se vai materializando, ao longo dos quarenta anos de Diário, na morte (real e simbólica) de muitos dos seus protagonistas. É, também aqui, a resistência contra o esquecimento — «Devo ter sido o único que em Portugal se lembrou de Papini, ontem que fez um século que ele nasceu» (pág. 351) ou «Suspeito que no Brasil o centenário de Corção será celebrado apenas com o silêncio» (pág. 549). Contra os sempre atentos vigilantes ideológicos. Resistência à ‘indústria cultural’, que, com o seu circo feérico de clowns e ilusionismos, tudo entrega à voracidade das sombras.
Leitores deste Diário, participaremos também desta resistência.

* O diário português de Eliade conheceu finalmente edição portuguesa em 2008, na Guerra e Paz. João Bigotte colaborou na sua revisão e anotação, tendo participado do seu lançamento.

[Texto originalmente publicado em 2002 na revista Foro das Letras, dirigida por António Osório]
 
 
publicado por annualia às 13:56
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