Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Le Clézio: Prémio Nobel da Literatura 2008

 Jean-Marie Gustave Le Clézio

Jean-Marie Gustave Le Clézio, escritor francês (n. Nice, 13.4.1940). Ambos os pais estavam fortemente ligados à ilha Maurícia, antiga colónia francesa (conquistada pelos britânicos em 1810). Aos 8 anos de idade, Le Clézio e a família mudaram-se para a Nigéria, onde o seu pai tinha sido colocado como médico durante a II Guerra Mundial. Durante a viagem de um mês que o levou à Nigéria, começou a sua carreira literária com dois livros Un long voyage e Oradi noir, os quais já continham alguns «livros por vir». Le Clézio cresceu na familiaridade de duas línguas: francês e inglês. Em 1950 a família regressou a Nice. Depois de completar o ensino secundário, estudou Inglês na Universidade de Bristol, em 1958-59, e completou a sua licenciatura em Nice (Instituto de Estudos Literários), em 1963. Fez mestrado na Universidade Aix-en-Provence, em 1964, e apresentou tese de doutoramento sobre a história antiga do México na Universidade de Perpignan, em 1983. Ensinou nas universidades de Banguecoque, Cidade do México, Boston, Austin e Albuquerque, entre outras..
O primeiro romance de Le Clézio, Le procès-verbal (1963), atraiu logo grande atenção. Como escritor jovem, surgido na sequência do existencialismo e do nouveau roman, tentou elevar as palavras acima da degenerescência do discurso quotidiano e restaurar nelas o poder de invocar uma realidade essencial. O seu romance de estreia foi o primeiro de uma série em que descreve estados de crise, incluindo a colectânea de contos La fièvre (1965) e Le déluge (1966), nas quais nota a inquietação e o medo reinantes nas grandes cidades do Ocidente.
Desde cedo que Le Clézio se apresentou como um autor ecologicamente comprometido, orientação que se acentuou em Terra amata (1967), Le livre des fuites (1969), La guerre (1970) e Les géants (1973). O reconhecimento definitivo surgiu com Désert (1980), premiado pela Academia Francesa. Esta obra contém magníficas imagens de uma cultura perdida do deserto do Norte de África, contrastada com uma visão da Europa pelos olhos de emigrantes indesejados. A personagem principal, um trabalhador argelino, Lalla, é a antítese utópica da fealdade e brutalidade da sociedade europeia.
Durante este mesmo período Le Clézio publicou colecções de ensaios de reflexão L’extase matérielle (1967), Mydriase (1973) e Haï (1971), este último revelando a influência da cultura indiana. Longas estadas no México e na América Central entre 1970 e 1974 tiveram consequências decisivas na sua obra, tendo deixado as grandes cidades em busca de uma nova realidade espiritual no contacto com os índios. Encontrou a marroquina Jemia, com a qual casou em 1975. No mesmo ano publicou Voyage de l’autre côté, um livro no qual dá conta das suas aprendizagens na América Central. Le Clézio iniciou a tradução das grandes obras da tradição índia, como Les prophéties du Chilam Balam. Le rêve mexicain ou la pensée interrompue (1998) testemunha o seu fascínio pelo passado majestoso do México. Desde os anos 90, Le Clézio e sua mulher dividem o seu tempo por Albuquerque, no Novo México, a ilha Maurícia e Nice.

Le Chercheur d'or (1985) aborda material das ilhas do Oceano Índico no espírito da história de aventuras. Nos últimos anos, surge nos seus livros a atracção pelo sonho de um paraíso terrestre, como é o caso em Ourania (2005) e Raga: approche du continent invisible (2006). Este último é dedicado à documentação do modo de vida das ilhas do Índico, em vias de desaparecimento com o avanço da globalização. O primeiro tem como cenário um vale remoto do México, onde a personagem principal, alter ego do autor, encontra uma colónia de gente em demanda que reconquistou a harmonia da idade de ouro e pôs de parte os costumes de uma civilização decaída, incluindo as suas línguas.

A ênfase da obra de Le Clézio alterou-se progressivamente no sentido da exploração do mundo da infância e da história da sua própria família. Esta orientação começou em Onitsha (1991) e continuou mais explicitamente em La quarantaine (1995), culminando em Révolutions (2003) e L’Africain (2004). Révolutions reúne os temas mais importantes da sua obra: memória, exílio, as reorientações da juventude, conflito cultural. Episódios de diversos tempos e lugares justapõem-se: os estudos da personagem principal em Nice, Londres e México, nos anos 50 e 60; as experiências de um antepassado britânico como soldado no exército da revolução em 1792-94, e a sua emigração para a Maurícia para escapar à repressão da sociedade revolucionária; e a história de uma escrava desde o início de 1800. Incrustada nas memórias de infância está a história da visita da personagem principal à irmã do seu avô, o último mediador da tradição da família nas propriedades perdidas da Maurícia, cuja memória, ele, enquanto escritor, passará ao futuro.

L’Africain, a história do pai do autor, é ao mesmo tempo uma reconstituição, uma justificação e a memória de um rapaz que viveu na sombra de um estranho que era obrigado a amar. Ele recorda através da paisagem: África diz-lhe quem ele era quando, aos oito anos, viveu o encontro da família depois da separação durante os anos da guerra.

Entre as obras mais recentes de Le Clézio está Ballaciner (2007), um ensaio profundamente pessoal sobre a história da arte do filme e a importância do filme na vida do autor, desde os projectores manuais da sua infância ao culto das tendências do cinema durante a adolescência, até à exploração da arte do filme realizada em estranhos lugares do mundo. Um novo livro, Ritournelle de la faim, acaba de ser publicado.
Le Clézio escreveu também duiversos livros infantis e juvenis, por exemplo Lullaby (1980), Celui qui n’avait jamais vu la mer suivi de La montagne du dieu vivant (1982) e Balaabilou (1985).
Prémios literários: Prémio Théophraste Renaudot (1963), Prémio Larbaud (1972), Grande Prémio Paul Morand da Academia Francesa (1980), Grande Prémio Jean Giono (1997), Prémio Príncipe do Mónaco (1998), Prémio Stig Dagerman (2008). [Fonte: Nobel]

 

 

 

 

 

publicado por annualia às 12:22
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