Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Prémio Vergílio Ferreira 2008

O escritor Mário Cláudio foi distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira, promovido pela Universidade de Évora. Integraram o júri, que decidiu por unanimidade, José Alberto Gomes Machado (Universidade de Évora), José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra), Isabel Allegro de Magalhães (Universidade Nova de Lisboa), Elisa Nunes Esteves (Universidade de Évora) e a jornalista Clara Ferreira Alves.

Mário Cláudio, pseudónimo de Rui Manuel Pinto Barbot Costa (Porto, 1941). Distinguido com vários prémios literários, foi Prémio Pessoa em 2004.

Obras: Ciclo de Cypris (poesia, 1969), Sete Solstícios (poesia, 1972), Um Verão Assim (ficção, 1974), As Máscaras de Sábado (ficção, 1976), A Voz e as Vozes (poesia, 1977), Estâncias (poesia, 1980), Terra Sigillata (poesia, 1982), Damascena (ficção, 1983), Amadeo (ficção, 1984), Guilhermina (ficção, 1986), A Fuga para o Egipto (ficção, 1987), Rosa (ficção, 1988), Noites de Anto (teatro, 1988), A Ilha de Oriente (teatro, 1989), A Quinta das Virtudes (ficção, 1990), Tocata para Dois Clarins (ficção, 1992), Itinerários (ficção, 1993), As Batalhas do Caia (ficção, 1995), Dois Equinócios (ficção, 1996), Dois Equinócios (poesia,1996), O Pórtico da Glória (ficção, 1997), Henriqueta Emília da Conceição (teatro, 1997), O Último Faroleiro de Muckle Flugga (ficção, 1998), O Estranho Caso do Trapezista Azul (teatro, 1998), Peregrinação de Barnabé das Índias (ficção, 1998), Ursamaior (ficção, 2000), Fotobiografia de António Nobre (2001), Meu Porto (2001), O Anel de Basalto e Outras Narrativas (ficção, 2002), Oríon (ficção, 2003), Triunfo do Amor Português (ficção, 2004), Gémeos (ficção, 2004), Camilo Broca (2006).

 

 

 

Mário Cláudio: uma deliberada singularidade
 
1. Mário Cláudio é um dos mais singulares narradores portugueses contemporâneos. Um dos aspectos que mais singulariza a obra de Mário Cláudio é o carácter aparentemente «não necessário» da sua escrita e do seu modo narrativo. Explico-me: necessário é algo que é assim e não pode ser de outra maneira. É na poesia que melhor se evidencia a relação solidária entre a forma do conteúdo e a forma da expressão: uma relação insubstituível e absoluta, inscrita no desígnio de a Poesia dizer o que não pode ser dito de nenhuma outra maneira. Todo o labor do poeta consistiria então em aproximar-se tentativamente dessa relação necessária, e a sua oficina poética assentaria na perseguição de uma justeza definitiva e indesligável entre o que quer dizer e a forma de o dizer. Se, paradoxalmente, a poesia lírica conta sempre uma história, é sem dúvida a desse encontro.
Essa procura traduz-se num processo tendencialmente tenso e retractivo, cuja natureza se repercute na arquitectura do texto, na sua organização interna, na sua música, na sua mancha, e até, por vezes, na sua dimensão.
A narrativa lida com outros problemas. É claro que o ficcionista também se ocupa daquela relação, também a persegue, mas tem outras histórias para tecer e entretecer, e deve obedecer às exigências e prioridades que elas lhe colocam. A mesma história pode ser contada de muitas maneiras. O que é dito assim, podê-lo-á ser de outra maneira, quer no plano da construção ficcional, quer no plano da expressão. A narração é uma espiral de escolhas, presas a uma âncora de coerências. Porém, se qualquer história depende do modo como é contada, no caso da ficção romanesca ela é o modo como é contada. Ora, justamente, a ficção de Mário Cláudio parece emanar da relação deliberadamente singular que se estabelece entre as histórias e o modo como são contadas. A deliberada singularidade da obra de Mário Cláudio seria assim o sinal da sua mão, o gesto do pintor visível na dimensão da pincelada.
 
2. A existência de um propósito de singularidade, isto é, a escolha voluntária de um caminho apartado, mas não o único caminho, é o contraforte a que se encosta a ideia do carácter «não necessário» da escrita de Mário Cláudio.
Não se trata de obsessão pela originalidade, nem de uma preocupação vanguardista. A ficção de Mário Cláudio tem uma forte e por vezes explícita relação com a realidade histórica. Mas a parte da realidade que lhe interessa é aquela que pode explorar e inventar sem destruir o quadro mais largo e mais certo. Não pretende narrar o acontecido, como o faria o testemunho documental, nem intenta reconstituir, ficcionando as omissões e as incertezas, na linha do romance histórico. É, antes, a leitura de uma realidade que não é estática, ou, melhor, uma visão pessoal do movimento da realidade. E como a leitura é, não esqueçamos, um instrumento de incessante produção de sentido, ela é simultaneamente a reinvenção dessa realidade. Nem tudo será pura ficção, mas é sempre ficção pura.  
Ler os céus, ligar pontos perdidos e dispersos, uni-los numa configuração, dar-lhes uma ordem, um sentido, associá-los a um destino, sugerindo que ele lá estava desde sempre. As constelações não existem (Ursamaior, Oríon, Gémeos), mas estão lá, reflectindo o nosso olhar.
Dois aspectos avultam: a segmentação rítmica da narrativa e a língua literária que a corporiza. Pelo primeiro, a narrativa avança, mais do que pela acção das personagens, ao mesmo tempo que, poliédrica, se entrecruza, e, fragmentada, se complexifica. É um poderoso instrumento do Autor, cuja voz contém todas as vozes, voz que subsume a de todos os narradores e de todas as personagens. Essa voz unificadora materializa-se numa Língua, ela própria conquistando lugar de personagem.
É neste plano da expressão que se torna ainda mais patente a singularidade deliberada de Mário Cláudio. Nele se observa uma fuga intencional e premeditada da estreiteza lexical e semântica da língua comum, hoje dominante até na literatura, da sua vulgaridade correntia, não pela quebra de nexos lógicos ou outras tropelias sintácticas, mas através da vitalidade linguística, de uma energia verbal do mesmo passo exploratória e inventiva, onde arcaísmo e modernidade se abraçam em infinitas modulações. As tonalidades dessa língua literária rica, alienado património dos grandes prosadores, tornam-se indissociáveis da própria consistência romanesca, e, como Mário Cláudio escreve livros sobre gente, são elas também a medida do humano, na graça e na desgraça, e dos seus enigmas.
 
3. Tenho ouvido o escritor reiterar a sua recusa da facilidade. Julgo que essa recusa assumida ajudará a sustentar também a ideia de uma singularidade deliberada, que procurei brevemente circunscrever a um ou dois aspectos, ambos directamente relacionados com o facto de Mário Cláudio não ser um escritor do óbvio.
Mas Mário Cláudio «veio» da poesia, e essa experiência repetida em diversos momentos do seu percurso, contendo já uma narratividade intrínseca, acabou por se fundir na prosa, nela infundindo um liminar pendor, ao qual a arquitectura dos seus romances não será alheia, com implicações no seu comando, na sua tensão estrutural, na sua música própria, e provavelmente na sua dimensão.
Poder-se-ia dizer, então, que o carácter deliberadamente singular que o escritor imprime às suas narrativas, território de resistência ao convencional, faz convergir, por fim, em associação íntima, os planos de uma relação de necessidade entre conteúdo e expressão, em que o aparente carácter «não necessário», opcional, da sua escrita se revela afinal um tremendo imperativo literário, quase acrescentaria moral, e a marca-de-água da obra de Mário Cláudio.
 
Jorge Colaço
(excertos do texto publicado em Foro das Letras, 13/14, Julho de 2006)
 

 

publicado por annualia às 16:54
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