Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Taxonomia moderna: a ordem a partir do caos *


Isabel Maria Amaral **

 

Caroli Linnaei, Carolus von Linnaeus, Carl Linnaeus, Carlos Lineu ou ainda Carl von Linné, é considerado o fundador da taxonomia moderna, pela concepção de um novo sistema de organização e de classificação da biodiversidade proveniente da conquista do Novo Mundo. O seu legado científico influenciou várias gerações de cientistas, mesmo aqueles que se opuseram às concepções filosóficas e teológicas sobre as quais assenta a sua obra. Filho de um pastor luterano, Lineu considerava-se enviado de Deus para desvendar o segredo da Natureza. Cristão convicto, via Deus em cada ser vivo que estudava e para ele o jardim botânico era um verdadeiro Jardim do Éden. Através da sua obra-prima, Systema Naturae, publicada em 1735, deu a conhecer ao mundo mais de 7000 plantas e 4000 animais, que classificou e designou. O impacto do seu sistema de classificação na cultura do seu tempo foi incalculável e influenciou um considerável número de discípulos, atingindo não só cientistas como também figuras de Estado e do clero, bem como jardineiros, pintores ou escritores.

A prioridade taxonómica vegetal e animal começou com Lineu: as designações mais antigas ainda hoje aceites estão contidas no Species Plantarum, para as espécies vegetais e as dos animais, na décima edição do Systema Naturae, de 1758. Lineu nasceu a 23 de Maio de 1707 em Stenbrohult, na Suécia. Era filho de Nils Ingemarsson (1674-1733) e de Christina Brodersonia (1688-1733). Seu pai era pastor luterano e, simultaneamente, jardineiro. Aos 20 anos decidiu estudar Medicina na Universidade de Lund, mas um ano depois transferiu-se para Uppsala, a universidade mais prestigiada da Suécia. Enquanto estudante, sem grandes facilidades económicas, conheceu amigos influentes, que o auxiliaram e o projectaram para uma carreira científica promissora. No jardim botânico de Uppsala conheceu o deão, professor de Teologia, Olof Celsius (1670-1756), que era entusiasta da botânica. Celsius teve uma influência marcante na carreira de Lineu. Por sua influência foi convidado pelo professor de Botânica, Olof Rudbeck (1660-1740), como demonstrador de botânica no jardim botânico da universidade e, mais tarde, professor de Botânica Teórica. Esta disciplina, completamente nova na universidade, conduziu mais tarde à publicação da Philosophia botanica (1751).

A par de um gosto pela inventariação da natureza, Lineu nunca esqueceu a utilidade prática do conhecimento da Natureza e advogava para a Suécia uma estratégia económica que se baseava numa política de substituição de importações utilizando suportes científicos e tecnológicos até então desconhecidos, designadamente os processos de adaptação e aclimatação botânicas, que Domingos Vandelli (1730-1816) referia. Desta forma, foi organizando diferentes expedições científicas, dentro e fora do seu país, financiadas com apoio de entidades públicas ou privadas. A primeira destas expedições foi efectuada em 1731, a Lapland, com o apoio da Royal Science Society de Uppsala. Nesta expedição botânica e etnográfica atravessou a península Escandinava até ao oceano Árctico e descobriu várias espécies vegetais. Os resultados desta expedição foram publicados em 1737, Flora Lapponica, e editados em inglês por Sir J. E. Smith, sob o título, Lachesis Lapponica, em 1811. Esta missão atraiu a atenção não só dos suecos como também de outros povos pelo pormenor de descrição das espécies biológicas observadas, em particular, as plantas. Em 1735, viajou para a Holanda com o objectivo de terminar o curso na Universidade de Harderwijk (que actualmente não existe). A partir deste momento, teve acesso ao riquíssimo material da Companhia das Índias Orientais e Ocidentais, com colecções de espécies de várias partes do mundo, inclusive as colecções vivas e preservadas de plantas e animais durante a invasão holandesa ao Brasil. Concluído o curso resolveu seguir para Leiden onde travou conhecimento com figuras influentes e empenhadas no financiamento das suas obras. Por exemplo, Systema Naturae foi financiada pelo botânico e senador de Leiden, Jan Fredrik Gronovius (1690-1762). O Systema Naturae não é mais que uma enciclopédia de História Natural, à semelhança da Histoire Naturelle, publicada por Buffon, em França, em 1749. Systema Naturae constitui a «obra-prima» de Lineu. Foi sendo actualizada não só nas várias edições e traduções que conheceu, mas também na clarificação de alguns conceitos, noutras obras como sejam a Fundamenta Botanica, publicada em 1736, e ainda na publicação, Species Plantarum, publicada em 1753.

Gloria superba L. (Herbárioi de Lineu)

Para Lineu, as espécies eram entidades reais que podiam ser agrupadas em categorias superiores. Porquê a ordem no caos? Antes de Lineu, as espécies assumiam designações diferentes. A necessidade de encontrar um sistema organizado tornou-se imprescindível dada a enorme variedade de plantas e animais que provieram da Europa, Ásia, África e Américas, após os Descobrimentos. Lineu simplificou a designação utilizando um nome latino para o género e um outro mais curto para a espécie. Este sistema ficou conhecido como binomial e foi reunido na obra Species Plantarum. Embora artificial, como o próprio Lineu reconhecia, este sistema de classificação permitia não só identificar de imediato uma espécie como também as suas características e designá-la de forma inequívoca em qualquer parte do globo. Estava criada uma linguagem universal na identificação da biodiversidade. Na segunda metade do século XVIII a proposta de Lineu era plenamente aceite por toda a Europa: Uma planta é completamente nomeada quando se lhe fornece um nome genérico e um nome específico. O nome específico deve distinguir a planta de todas as outras do mesmo género. (Linnaeus, 1738. Critica botanica.)

A estada de Lineu na Holanda tornou-se crucial para a consolidação da sua carreira que dominou por completo a ciência iluminista durante a segunda metade do século XVIII. Provavelmente as publicações que realizou entre 1735 e 1738 tornaram-se a unidade basilar das ciências naturais até ao advento do darwinismo e certamente constituíram um complemento essencial à popularidade do newtonianismo, uma forma de legitimação das ciências da vida. Nos anos seguintes visitou Inglaterra e França. Em França conheceu Antoine Laurent de Jussieu (1748—1836), o naturalista francês mais influente do seu tempo. Por seu intermédio, a Academia de Ciências de França aceitou-o como sócio correspondente. Em 1738 regressou à Suécia para confirmar o seu casamento com Sara Lisa Moræa e exercer clínica para sustentar a família. Em Estocolmo, foi recebido como um estranho mas rapidamente encontrou amigos influentes que o auxiliaram e meses depois, não só tinha o emprego desejado como também tinha sido co-fundador da Academia de Ciências da Suécia. Dedicou-se à prática clínica e tornou-se o médico particular da família real sueca. Em 1741, ocupou a cátedra de Medicina Prática na Universidade de Uppsala que rapidamente trocou com a de Botânica. Era responsável pelo ensino da Botânica, da Metalurgia e, ainda, pela supervisão do jardim botânico. Aqui restaurou o jardim botânico (organizando as plantas de acordo com o seu sistema de classificação). Lineu era um professor muito popular e a história natural apaixonava facilmente qualquer aluno. Estudantes de todas as faculdades vinham assistir às suas aulas, correspondiam-se com ele. Os reis da Suécia concederam-lhe o título nobre em 1757, passando a usar o nome de Carl von Linné. Enquanto professor publicou várias obras sobre as expedições que realizou. Em contacto com naturalistas do mundo inteiro Lineu tornou-se também famoso pelos discípulos que enviou em diferentes missões científicas. Carl Peter Thunberg, Daniel Solander, Peter Kalm, Anders Sparrman viajaram para a China, Japão, Nova Zelândia, América do Norte e do Sul, Médio Oriente e África. Orientou 180 dissertações e 23 dos seus alunos tornaram-se professores. Lineu publicou mais de uma centena de obras. Nesta época, a sistemática e a taxonomia foram os vectores determinantes da apropriação e explicação do mundo biológico que no século seguinte conduziriam à emergência da Biologia como disciplina autónoma. De grande aceitação inicialmente em Inglaterra e em França, os iluministas, e particularmente Buffon, foi um dos seus principais adversários.

O seu filho, também Carl, sucedeu-lhe na Universidade de Uppsala, mas

nunca foi botânico. O jovem Carl faleceu muito jovem e sem deixar herdeiros. À data da sua morte, a biblioteca, os manuscritos e as colecções de Lineu foram vendidas ao naturalista inglês, Sir James Edward Smith, que fundou em Londres a Sociedade Lineana. Esta continua a ser a maior sociedade internacional para o estudo da história natural. O Linné Herbarium, no Museu de História Natural da Suécia preserva algumas das espécies originais de Lineu, bem como uma biografia detalhada do autor. Existem outros centros com colecções de Lineu, como sejam, a Strandell Linneana Collection, no Carnegie-Mellon University, e a Mackenzie Linneana Collection na Kansas State University, nos Estados Unidos.

 

* Texto publicado na Annualia 2006-2007.

** Professora da Universidade Nova de Lisboa.

 

A imagem representa Gloria Superba L., pertencente ao Herbário de Lineu

http://linnaeus.nrm.se/botany/fbo/g/welcome.html.en

publicado por annualia às 12:55
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