Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Prémio Margaret Mead 2007

O antropólogo brasileiro João Biehl, professor associado da Universidade de Princeton, ganhou o Prémio Margaret Mead 2007, uma das mais prestigiosas distinções atribuídas a livros de antropologia, resultante da colaboração entre a  American Anthropological Association e a Society for Applied Anthropology. O livro de João Biehl, já anteriormente premiado, tem como título Vita: Life in a Zone of Social Abandonment e foi publicado em 2005 pela University of California Press.
O livro de Biehl conta a história de Catarina, uma jovem brasileira internada em Vita, uma asilo para doentes mentais e pobres. Devido a uma doença neurodegenerativa mal diagnosticada, Catarina fica paralisada, é considerada louca e abandonada pela família. Biehl estuda as circunstâncias da doença de Catarina para expor à luz do dia as forças económicas, médicas, políticas e familiares pelas quais Vita e outras instituições de último recurso, pobres e desgovernadas, proliferaram no Brasil. Biehl é também autor de Will to Live: AIDS Therapies and the Politics of Survival. (Fonte: News@Princeton).
A área primordial de interesse da investigação de João Biehl é a da antropologia médica, dos estudos sociais de ciência e tecnologia e das sociedades latino-americanas. A sua pesquisa actual examina o uso generalizado de medicamentos de efeitos psíquicos nos bairros pobres do Brasil, a distribuição e adesão a tratamentos anti-retrovirais em contextos de ausência de recursos e de como o meio e a história de vida influenciam a expressão patogénica de genes.
Biehl é doutorado em Antropologia pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e doutorado em religião pela Graduate Theological Union. Foi National Institute of Mental Health Postdoctoral Fellow na Universidade de Harvard (1998-2000); membro da School of Social Science do Institute for Advanced Study, Princeton (2002-2003); e professor visitante na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris (2004).
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Uma ideia para o fim do ano

 

Formigos ou Mexidos

3 a 4 fatias de pão de forma;
1,5 dl de leite;
125 g de açúcar;
75 g de amêndoas peladas;
50 g de corintos sem grainhas;
4 gemas;
1 cálice de vinho do Porto;
canela.

Parta o pão em bocados e regue com o leite morno. Leve o açúcar ao lume
com 1 dl de água e deixe ferver só o tempo necessário para obter um
ponto fraco. Escorra o leite que não foi absorvido e desfaça o pão com
a varinha. Junte ao açúcar, espalhe-o na calda (em movimentos suaves
para não se queimar) e deixe ferver 5 minutos. Adicione metade das
amêndoas grosseiramente raladas e os corintos, e deixe apenas levantar
fervura. Desfaça as gemas no vinho do Porto e junte ao preparado
anterior. Leve ao lume e, sem ferver, deixe espessar um pouco. Retire
os formigos do calor, deite-os no prato de serviço, polvilhe com canela
e espalhe por cima as restantes amêndoas em falhas e ligeiramente
torradas.
Nota: se o doce ficar muito espesso, junte-lhe um pouco de água a
ferver.

Como esta conversa e estas receitas só vêm a propósito nos fins do ano,
aproveito para desejar a todos um próximo ano muito rico em bons aromas
e bons sabores e outras coisas boas que eu sei que merecem.

 

 

Texto: Maria de Lourdes Modesto em Palavra puxa Receita (crónicas publicadas no Diário de Notícias), Editorial Verbo.
Desenhos: Marta Leite
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

O Paquistão na Annualia 2007-2008

 

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Alguns factos da história do Paquistão

A história política, religiosa e cultural, até à criação do Paquistão em 1947, é comum à da Índia. O Paquistão tem as suas origens na velha Liga Muçulmana, fundada em 1909 para defender os interesses dos Muçulmanos ou Islamistas, mas que a partir de 1913 estabeleceu como finalidade conseguir o governo dos muçulmanos da Índia por eles mesmos. Flag of Pakistan
A ideia de um Estado único para os muçulmanos da Índia provém do poeta Mohammed Iqbal, que a exprimiu pela primeira vez por 1930. Em 1936, M. Ali Jinnah foi escolhido para presidente da Liga dos Muçulmanos da Índia. A Liga, que obteve desde então grande prestígio, em 1940 passou a defender a ideia da cisão da Índia em dois Estados, um hindu e o outro muçulmano, este com o nome de «Paquistão». De tal modo a sua força aumentou, de 1944 a 1947, que M. Ali-Jinnah conseguiu, nesse ano, do vice-rei Lord Mountbatten, a criação do Paquistão (membro da Commonwealth desde o início), um Estado dividido em duas províncias: Paquistão Ocidental e Paquistão Oriental. Nada as unia a não ser a religião islâmica receosa do domínio hinduísta. Esse vínculo não bastou para assegurar a união. Map of Pakistan
De facto tudo se passava como se, no plano político, económico e social, o Paquistão Ocidental «oprimisse» o Oriental, precisamente o que os Bengalis tinham querido evitar ao constituir um Estado com os seus irmãos muçulmanos.
Porém, em 1956 proclamou-se República Islâmica e, em 1965, entrou em guerra com a República da Índia. Seguiu-se uma intervenção da ONU que restabeleceu a paz. No entanto, em 1971, o partido autonomista Awami ganhou as eleições, ficando com direito a constituir o governo central. Receando que a cedência às exigências autonomistas dos Bengalis, estimulasse outras pretensões autonomistas, o exército lançou uma repressão violenta contra os Bengalis que procuraram refúgio na vizinha Índia, que interveio com o seu exército. O Paquistão Ocidental rende-se e a independência do Bangladesh (Paquistão oriental) torna-se efectiva. O Paquistão perdia assim 1/6 do seu território e mais de metade da sua população. O facto ressentiu-se, sobretudo, na vida externa do país, tornando-o muito mais dependente das grandes potências, e levou o Paquistão a normalizar as relações com a China.
Zulfikar Ali BhuttoZulfiqar Ali Bhutto eleito presidente do Paquistão procurou redefinir a política externa, relançar a economia e dotar o país de instituições estáveis. Em 1972 estabeleceu relações com Moscovo e buscou ajuda na China Popular, ao mesmo tempo que reafirmava a sua fidelidade aos EUA e a solidariedade com os países islâmicos. As relações com o Bangladesh foram normalizadas em 1974. Em 1973 adoptou uma nova Constituição, de tipo federal. Ali Bhutto torna-se primeiro-ministro e Fazal Chaudri, o novo presidente da República. As grandes potencialidades hídricas e hidroeléctricas, sobretudo no Punjab e no Sind, permitiram desenvolver extraordinariamente a agricultura e a pecuária, mas a falta de investimento, impediu a industrialização. Por outro lado, as províncias fronteiriças (no Nordeste e o Balochistão) foram estimuladas nas suas pretensões autonomistas pelo Afeganistão (devido aos pashtos que vivem nos dois países), sob pressão soviética, desejosa de ter um fácil acesso ao golfo Pérsico. O exército depôs Ali Bhutto em 1977. O general Zia Ul Haq foi empossado no cargo de chefe de Estado (1978), acumulando o cargo com o administrador da lei marcial e chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.
O novo presidente empenhou-se na islamização de toda a vida paquistanesa, único meio, em sua opinião, de manter a unidade nacional. Em 1979, Zia Ul Haq declarou como «lei suprema» o Corão e a Suna, os dois livros sagrados do Islão. Ali Bhutto foi condenado e enforcado. Com isto, pretendia-se minar a formação política de Ali Bhutto, o Partido Popular Paquistanês, que, por duas vezes (1970 e 1977), vencera as eleições legislativas. Mas a sua morte não produziu os objectivos desejados: o mundo inteiro manifestou a sua repulsa pela sentença, e o inegável prestígio deste dirigente político aumentou ainda mais junto do próprio povo paquistanês.
Estes acontecimentos, juntamente com a aquisição de instalações nucleares, levaram ao esfriamento das relações com os EUA, que acusaram o Paquistão de violar os acordos de limitação de armas deste tipo. Mas a situação viria a alterar-se rapidamente. Em 1980, depois da invasão do Afeganistão pelos exércitos russos, centenas de milhares de refugiados chegam ao território paquistanês, que assume assim uma posição de importância na estratégia defensiva do Ocidente. Pouco tempo depois, a China afirmou o seu apoio a Zia Ul Haq e os americanos ofereceram­se para fornecer auxílio militar. Mas nada disto impediu que o regime se tornasse cada vez mais duro. A vida parlamentar fora suspensa e a lei corânica aplicada à letra. Em 1981, a oposição organizou uma «campanha de desobediência civil» com o objectivo de provocar a queda de Zia Ul Haq. Mas o presidente apenas se limitou a promulgar uma Constituição provisória que lhe dava o poder de dissolver os partidos políticos. Alterada a Constituição, o chefe do Estado pôs termo à relativa democratização do regime.
Apesar disso, os partidos foram de novo autorizados. Em 1985 foi levantada a lei marcial, em vigor desde 1977. Em 1986 regressou do exílio a filha do antigo primeiro-ministro Ali Bhutto, Benazir Bhutto, agora presidente do Partido Popular Paquistanês (PPP). Zia Ul Haq morre num desastre de aviação e o presidente do Senado, Ghulam Ishaq Khan, assumiu o poder, marcando eleições, que deram a vitória ao PPP. Embora sem maioria na Assembleia Nacional, uma disposição constitucional permitiu ao presidente a nomeação de Benazir Bhutto para o cargo de primeiro-ministro. A jovem chefe do Executivo anunciou no seu programa uma maior aproximação dos EUA, da União Soviética e da Índia, a renovação das organizações estudantis, reformas laborais e o reequipamento do Exército. No fim de 1989, Benazir Bhutto enfrentou a primeira moção de desconfiança. Durante o ano de 1990 acentuou-se o mal-estar entre o Governo e o Exército, que terá feito pressão sobre o presidente para demitir a primeira-ministra, o que veio a verificar-se. Passam a registar-se confrontos entre partidários de Benazir Bhutto e as autoridades. Em 1992, o Paquistão reconheceu, pela primeira vez, a sua capacidade de fabricar a arma nuclear. Ishaq Khan pediu a demissão em 1993. Wasim Sajjad ocupou a presidência interinamente. Em 1994, as eleições dão a presidência a Farouk Ahmad Leghari. Renovam-se confrontos entre sunitas e extremistas xiitas. O presidente demite-se, em 1997 e é substituído por Mohamed Rafiq Tarar. Em 1999 um golpe de Estado militar pôs no poder o general Pervez Musharraf. Este suspendeu a Constituição e assumiu a chefia do governo (mantendo-se o presidente em exercício em funções apenas para efeitos protocolares), depois de ter formado um Conselho Nacional de Segurança que constitui o governo supremo do país.
É neste panorama político interno que teve lugar a ofensiva dos americanos e britânicos contra o Afeganistão, originada pelos ataques terroristas do 11 de Setembro (2001). Musharraf coopera então na luta contra o terrorismo e os Estados Unidos da América levantaram as sanções impostas ao Paquistão, depois dos ensaios nucleares de 1998. Em 2002 Musharraf dissolveu os movimentos islamitas. Fortemente contestado, a braços com a utilização de território paquistanês por taliban afegãos e pressionado pelo Ocidente, o general enfrentou em 2007 a crise da Mesquita Vermelha de Islamabad que motivou o ataque no qual pereceram várias dezenas de rebeldes. Em Outubro, o regresso de Benazir Bhutto abriria caminho ao regresso do exílio de Nawaz Sharif, o homem que Musharraf destituíra em 1999. Musharraf preparava também o seu futuro político abandonando nominalmente a chefia do exército paquistanês.
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Benazir Bhutto (1953-2007)

Benazir Bhutto (Karachi, 21.6.1953 – Rawalpindi, 27.12.2007) era filha de Zulfikar Ali Bhutto (1928-1979), o político que ficou à frente dos destinos do Paquistão após a derrota pela Índia e a criação do Bangladesh, em fins de 1971, e depois deposto por um golpe militar chefiado por Zia Ul Haq, em 1977. Assumiu então a direcção do Partido Popular do Paquistão, fundado por seu pai em 1967, e, em 1988, depois de um primeiro exílio em Londres, aos 35 anos, Benazir tornou-se primeira-ministra na sequência de eleições, mas dois anos depois, era obrigada a demitir-se acusada de nepotismo e corrupção. De novo eleita em 1993, em 1996 sairia pressionada por novas acusações de corrupção. Em 1999 acabaria por se exilar voluntariamente no Dubai e em Londres, mas continuando a dirigir o PPP, que continuou a ser a principal força de oposição ao general Pervez Musharraf.
O seu regresso ao Paquistão, em Outubro deste ano, ocorreu num momento de grave crise do país e esse facto tê-la-á levado a aceitar um pacto com os militares, os velhos inimigos da sua família, para a repartição do poder na sequência das próximas eleições, previstas para Janeiro de 2008. O objectivo seria a reconciliação nacional, mas o seu gesto foi mal aceite por muitos dos seus apoiantes.
Hoje, foi alvejada por um tiro quando saía de um comício de campanha eleitoral disparado por um suicida que se fez explodir em seguida.
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D. Pedro Gastão de Orleans e Bragança (1913-2007)

D. Pedro de Alcântara Gastão João Maria Filipe Lourenço Humberto Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança, pretendente directo ao trono do Brasil (Chateau d’Eu, 19.2.1913 -Villamanrique de la Condesa, 27.12.2007), era bisneto de Pedro II, o último imperador do Brasil. Casou, em 1944, com D. María de la Esperanza de Borbón-Dos Sicilias y Orleans, terceira filha do infante espanhol D. Carlos (1970-1949) e tia do rei Juan Carlos I. Apesar de o seu pai, D. Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança ter renunciado ao direito de sucessão, D. Pedro Gastão sempre se apresentou como herdeiro legítimo e participou activamente, em 1993, na campanha para a reimplantação da monarquia no Brasil. D. Pedro Gastão era irmão da mãe de D. Duarte Pio, pretendente ao trono de Portugal. Ao longo de muitos anos repartiu a sua vida pelo Brasil (Petrópolis) e Espanha (Villamanrique de la Condesa, Sevilha). Possuía, entre outras distinções, a de Cavaleiro da Grã Cruz da Ordem de Pedro I, Cavaleiro da Grã Cruz da Ordem da Rosa e era também Cavaleiro da Ordem de San Genaro.
Família Imperial Brasileira: da esquerda para a direita, sentadas, Princesa D. Esperanza, Princesa D. Isabel (Condessa de Paris) e Princesa D. Elizabeth (Princesa-Mãe). De pé, ao fundo, ainda da esquerda para a direita, Príncipe D. Pedro Gastão, Princesa D. Teresa e Príncipe D. João.
 
 
 
 
 
 
 
D. Pedro Gastão de Orleans e Bragança ao lado do trono que pertenceu ao seu bisavô D. Pedro II. Esta peça faz parte do acervo do Museu Imperial de Petrópolis.
 
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publicado por annualia às 10:39
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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Oscar Peterson (1925-2007)

Músico de jazz canadiano (Montreal, Quebeque, 15.8.1925 - Mississauga, Ontário 24.12.2007), senhor de uma técnica pianística excepcional que lhe permitia abordar as peças mais complexas. Peterson estudou, depois de ter trocado a trompete pelo piano, com Paul de Marky, um pianista húngaro que tinha sido discípulo de uma aluno de Liszt. Em 1947 formou o seu próprio trio, depois de ter tocado na banda de Johnny Holmes. Oscar Peterson deveu muito da sua carreira ao empresário Norman Granz, que o apresentou no Carnegie Hall ao lado de Charlie Parker, Lester Young, Coleman Hawkins, Buddy Rich, Ray Brown e Ella Fitzgerald. Foi o pianista de cerca de duas centenas de discos produzidos por Granz, além dos seus próprios álbuns, sendo unanimemente reconhecido como um dos nomes cimeiros do piano no jazz do século XX. Foi distinguido com sete prémios Grammy, incluindo um pela sua carreira (1997). Em 1994, passou a integrar a Universidade de York, em Toronto, da qual foi nomeado chanceler em 1991. Em 1984 foi agraciado com a mais elevada distinção civil do Canadá e, em 2005, a sua efígie apareceu num selo, tornando-se o primeiro canadiano vivo a merecer tal distinção.
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Julien Gracq (1910-2007)

 

 

Escritor francês, de seu verdadeiro nome Louis Poirier, talvez a última das grandes figuras da literatura francesa do século XX (Saint­-Florent-le-Vieil, 27.2.1910 - Angers, 22.12.2007). 
Tornou-se mais conhecido do grande público quando recusou o Prémio Goncourt, atribuído ao seu livro Rivage des Syrtes (1951). Amigo e admirador de Breton, foi muito marcado pelo Surrealismo. Soube harmonizar rigor intelectual e paixão numa obra perfeitamente equilibrada, pautada pela valorização do estilo, escrita numa linguagem de rara mestria.
Além dos romances Au château d’Argol (1938), Un beau ténébreux (1945), Un balcon en forêt (1958) escreveu um ensaio polémico, La littérature à l’estomac (1950), no qual acusa os processos que tendem a fazer da obra de arte um produto de consumo.
Outras obras: Préferences (1961), Le Presqu’île (novelas, 1970), Lettrines (1974), Les eaux étroites (narrativa, 1976), En lisant, en écrivant (crítica, 1980), La Forme d’une ville (1985), Autour des sept collines (1988), Carnets du grand chemin (1992).
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Julien Gracq, o último dos clássicos
 
Gracq é o último dos clássicos. Um escritor de um tempo antigo, anterior ao reino dos médias e à derrota do estilo. A partir de 1950, com a sua glória em plena ascensão Gracq insurge-se num célebre panfleto contra os perigos que ameaçam a literatura: o nivelamento por baixo, a progressiva servidão dos espíritos, o aparecimento de um público desorientado, que não lê, e para quem o nome do autor não tem mais valor que o de uma marca comercial. Antecipando a lógica das celebridades, Gracq profetiza o surgimento do autor-vedeta, reduzido a não ser mais que uma figura de actualidade, envolto por um ruído de fundo mediático que adocica o seu pensamento ao mesmo tempo que amplifica a sua imagem. La Littérature à l’estomac, chamar-lhe-á Gracq, feita para impressionar, servida uma e outra vez como prato comestível, até ao vómito.
Condenando a pequena cozinha literária, Gracq prefere o jejum e a ascese. Recusa, em 1951, o prémio Goncourt concedido a Le Rivage des Syrtes. Posteriormente, dissolve rapidamente o género romance, por este não lhe despertar apetite suficiente, e escolhe a forma fragmentária, escrevendo ensaios de uma liberdade resplandecente compostos ao longo dos seus passeios, leituras e meditações. A sua obra é constituída, no total, por dezasseis livros (...) todos publicados por um editor que soube permanecer um artesão, José Corti, a quem assentaria bem a divisa «Nada de comum». Não tendo a ambição de rivalizar com as Obras Completas dos grandes autores, superabundantes por natureza, não se excita mesmo se teve o privilégio raro de ser entronizado, em vida, na Biblothèque de la Plêiade. Quanto ao resto, uma discrição absoluta, que confina com a provocação: Gracq sempre fugiu a ser fotografado ou a aparecer na televisão, apenas concedeu entrevistas em doses homeopáticas, das quais duas ao Magazine littéraire, a primeira em 1981, a segunda para este dossiê [Junho de 2007] após seis anos de silêncio.
Em 1992, ao publicar aos setenta anos, os seus Carnets du grand chemin, Gracq fechou a sua obra com o mesmo cuidado com que fecha as janelas de sua casa. Ele aí vive retirado, na residência de família de Saint-Florent-le-Vieil, nas margens do Loire, gozando, ao lado de sua irmã, uma vida de província ao abrigo da modernidade. Mundo perene e estático que alguns peregrinos que ele aceitou receber descobriram com veneração (...). Não se imagina refúgio mais apropriado que esta casa para se manter fora do tempo, vigiar as paisagens de uma França imutável e reler os seus clássicos, degustando palavras raras e antigas. A Philippe Le Guillou que o interrogava sobre os seus leitores futuros, Gracq evocou a permanência de uma sociedade secreta cada vez mais reduzida. A atracção pela beleza da língua e pelo estilo já não está na moda. Mas continuarão a existir aqueles happy few, iguais aos que o seu caro Stendhal apreciava, para ler Gracq com um fervor intacto.  
 
Jean-Louis Hue
Director de Le Magazine Littéraire (introdução do dossiê dedicado a Julien Gracq por esta revista em Junho de 2007).
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Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Votos de Bom Natal e Feliz Ano Novo

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Christian Bourgois (1933-2007)

 

Christian Bourgois, fundador das edições do mesmo nome (Antibes, 21.9.1933 – Paris, 20.12.2007), trabalhou, a partir de 1959, com o editor René Julliard, ficando na direcção da editora após a morte daquele, em 1962. Com Pierre Nora criou a colecção Archives. Em 1966, com Dominique de Roux, Christian Bourgois fundou a sua própria casa editora dentro do grupo Presses la Cité. Em 1968, retoma a colecção de bolso 10/18, a qual dirige até 1992, altura em que abandona o grupo para fundar uma editora independente, explorando sobretudo as literaturas estrangeiras: Boris Vian, J.R. Tolkien, Antonio Tabucchi, Toni Morrison, Virginia Woolf, Salman Rushdie, Ernst Jünger, John Fante, Manuel Vazquez Montalban, William Burroughs, Fernando Pessoa, Susan Sontag, Antonio Lobo Antunes, Linda Lê, Hanif Kureishi ou ainda Witold Gombrowicz.
Christian Bourgois, foi do princípio ao fim o único director literário da sua casa editora, mas soube rodear-se de excelentes conselheiros e tradutores e foi um editor verdadeiramente empenhado, ao serviço da literatura e do pensamento. (Fonte: La République des Lettres)

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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Nuno Siqueira (1929-2007)

Pintor português (Lisboa, 23.1.1929 - ibid., 19.12.2007).  Trabalhou com os pintores Almada Negreiros e Vieira da Silva. Em 1954 apresentou-se pela primeira vez em público, na exposição colectiva para o Prémio da Jovem Pintura, na Galeria de Março. Dele disse Fernando Guedes: «Na sua fase mais duradoura, a pintura de Nuno Siqueira. não escondia a forte impressão que a obra de Vieira da Silva (e o seu estágio no atelier da pintora em Paris) lhe causara. Obra de raiz abstracta, servida por uma poética não totalmente definida, caminhou posteriormente, num certo período de transição, para a busca de uma realidade recriada pela inserção discreta na tela de fragmentos figurativos, que permitiam supor que o pintor viesse a encontrar-se com os objectos», notando-se «a utilização por vezes simultânea da tela, do acrílico, da madeira, da colagem», a qual «empresta uma sedução imediata.» E, de facto, partindo de um construtivismo difuso veio a encontrar uma poética própria, de certo modo exemplificada nos painéis que executou para a estação do metropolitano dos Olivais.

   Fotos: www.olharesliboa.blogspot.com

 

 

publicado por annualia às 22:17
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