Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Verbo Clássicos: espaço para os Grandes Livros

 

Autores e obras clássicos são aqueles que não passam com o tempo. São autores e obras que nunca deixam de prosseguir o seu caminho.
Autores e obras – antigos ou modernos – exemplares:
de uma época, de uma escola, de um gosto, de uma tendência,
de um estilo, de um movimento, de um género,
de uma fidelidade ou de uma ruptura,
de um pensamento, de um engenho,
de um certo génio ou temperamento,
enfim, de um Autor.

Editar os clássicos é uma tarefa sempre urgente.

Bem editar os clássicos, com boas introduções, cuidado e gosto gráficos, num formato confortável e a um preço acessível, constitui uma atitude cultural e uma inciativa editorial de inestimável valor.


OS OITO PRIMEIROS

 

O dia fora convidava, adorável, de um azul suave, muito puro e muito alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os gerânios vermelhos estavam já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, de uma delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flores do campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava de leve àquele Sol tímido de Primavera tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta numa luz fresca e loira.




 

— Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de ir a Sintra?

Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart e pelas fugas de Bach? Pois bem, a ideia era vir a Sintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguém!












E ele ria; ria contínuo! Era rir diabólico o do bobo: porque nunca deixava de ir pulsar dolorosamente as fibras de algum coração. Os seus ditos satíricos, ao passo que suscitavam a hilaridade dos cortesãos, faziam sempre uma vítima.












 

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.















Quando o coração é de gelo, a razão dirige desafogada, imperturbável, em linha recta, o caminho da vida; quando a razão abdica e o coração domina, o movimento é irregular, mas livre; caprichoso, mas resoluto; funesto, mas incessante; porém se o coração e a cabeça medem forças iguais, a cada momento param para lutar, como atletas destemidos. De qualquer lado que tenha de se decidir a vitória, será disputada, até ao último instante, pelo contendor vencido; a pausa terá sido inevitável; a reacção enérgica; e a crise violenta.

 


 




Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o arremessarem ao longe. E, antes que o baque do cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana, que se atirara ao mar.
À voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens para salvar Mariana.

Salvá-la!...

Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços.


 

 




O homem da Maria da Viela viveu e morreu piteireiro. Nunca falava: sorria sempre, com o olho pisqueiro, o ar satisfeito, o cachimbo de barro metido na goela. Quanto ganhou, quanto estafou na taberna. Ela barafustava e não sei se lhe batia. Ia-o buscar à loja e levava-o aos empurrões para casa, ralhando todo o caminho -- e ele, calado, inalterável, a cuspinhar, numa satisfacão interior e perfeita. Todas as noites saía a barra sozinho, dentro do caíque, a remo ou a vela, e a cair de bêbado. Voltou sempre -- mar manso, mar ruim -- e nunca deixou de trazer peixe para beber. Um dia, com medo a um desastre, não o deixaram mais ir ao mar.





A gente começou de se juntar a ele e era tanta, que era estranha cousa de ver. Nom cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro; e, perguntando uns aos outros «quem matava o Mestre?», nom minguava quem respondesse que o matava o conde João Fernandes, permandado da rainha.










À medida que o Sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois conduzindo as ovelhas para os sítios mais ensombrados para se livrarem daestiagem, que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais, depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que nada: os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

 


 

 

publicado por annualia às 09:00
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