Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Darwin na Enciclopédia Interdisciplinar de CIÊNCIA e FÉ, edição Verbo

 «Na formulação da teoria evolucionista de Darwin, confluíram vários elementos, já analisados anteriormente, que operaram a níveis diferentes, por vezes de modo directo por vezes implícito. De entre estes, a particular psicologia de seu autor e a sua história pessoal; a influência do avô Erasmus de fé iluminista e deísta; a leitura de livros de filósofos, economistas e sociólogos de cariz materialista e liberal; as ideias dominantes no espírito inglês da época vitoriana (optimismo relativamente ao progresso, competicionismo, cientificismo incipiente, capitalismo); a perspectiva geológica "actualista" de Hutton e de Lyell, segundo a qual no passado agiram gradualmente as mesmas forças operantes no presente (oposta ao catastrofismo). Mas o
significado último da mensagem darwiniana é que a ordem e a harmonia não descendem de uma "autoridade" predestinadora ou das leis com que esta governa a natureza, mas surgem "espontaneamente" da luta que os indivíduos empreendem para a sua sobrevivência (→evolução). Nisto, pode-se colher um certo espírito de emancipação da religião (e da autoridade), de que Darwin se sente pessoalmente investido, também por causa da sua experiência pessoal, e o seu desejo de não obedecer a nada ou a ninguém, de competir livremente com os outros de modo próprio, obedecendo à própria natureza e às próprias inclinações (…). A difusão e a consequente, quase geral, aceitação da teoria de Darwin deveu-se também, em nosso parecer, à influência de factores extra-científicos e de subtis "correspondências" com o espírito do tempo. Assinalamos três: os conceitos de gradualismo e de continuidade, que permeiam o darwinismo, estavam em perfeito acordo com a concepção vitoriana caracterizada por um moderado conservadorismo social, inimigo de qualquer convulsão e de qualquer mudança demasiado repentinas; a certeza que permeia todo o pensamento de Darwin acerca do progresso imparável do mundo vivo de formas menos perfeitas para formas mais perfeitas estava de acordo com o optimismo progressista do século XIX (→ progresso); a importância atribuída à selecção natural estava em plena sintonia com a concepção competitiva ligada à concepção (quasi religiosa) do "livre mercado", preeminente em Inglaterra. O ambiente geral estava, no fundo, já preparado e maduro para receber um pacote de ideias que aquele mesmo tinha ajudado a coagular de modo implícito.»
(excerto)

 
Giovanni Monastra
(tradução: Américo Pereira) 

 

 

 

 

publicado por annualia às 10:28
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