Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Fernando de Paços: a obra poética

 

Deve-se aos brasileiros e à sua saborosa inventiva o terem dado à velha palavra "bissexto" um significado novo para, com ele, designar autores que escrevem pouco ou que raramente publicam. Há obras escassas porque a morte arrebatou cedo escritores, impedindo-os de irem além de um volume solitário e impedindo-nos de beneficiar, como leitores, de um talento que muito prometia. Aí temos o caso de Cesário Verde, com o seu Livro de publicação póstuma, de voz tão singular na lírica portuguesa. E também o caso de António Nobre, com o seu Só, livro tão único que os poemas que escreveu antes nem os que escreveu depois alguma coisa acrescentaram à imagem do Poeta exilado. O pobre José Duro, mal expelira o seu Fel, a morte o levou, exaurido de corpo e alma.
Diferente é o caso de Camilo Pessanha, que recolheu ao silêncio de motu proprio, salvando-se a sua poesia graças à devoção de Ana de Castro Osório e à solicitude de seu filho João, que transcreveu os poemas ditados pelo autor e viriam a ser coligidos na Clepsidra.
Como diferente é o caso de Fernando de Paços, cuja obra poética foi reunida num volume só, pela Imprensa Nacional–Casa da Moeda. Ao contrário daqueles antepassados, foi-lhe concedida uma vida mais dilatada, que lhe deu algum espaço para cuidar do seu jardim. E O Fértil Jardim é o título de uma das raras colectâneas publicadas por Fernando de Paços (1923-2003). Mas esse "jardim", mais do que "fértil", assinala-se por sua discreta graça. Tratando amorosa e pacientemente o seu "jardim", o Poeta não teve pressa, dir-se-ia que até um certo escrúpulo em expô-lo a público. É que, ao lado de um alto grau de exigência, haveria em Fernando de Paços um como que pudor de se exibir na feira literária, com todo o seu ruído, vaidade e emulação. Nem o seu interesse pelo teatro o levou a subir ao palco. Autor de peças infantis e entusiasta de fantoches e marionetas – era, certamente, a faceta lúdica de um homem reservado –, escondia-se atrás da cortina.

Data de 1953 O Fértil Jardim. O seu primeiro livro, Fuga, é de 1944 e aparece incluído numa colecção da "Poesia Nova", movimento que arvorava como lema "a Arte pelo todo". Contra uma visão particular, e até partidária, da arte e da vida, propugnava esse movimento uma poesia sem constrangimentos estéticos ou políticos. Era, pois, uma visão total, católica, universal, contraposta à concepção ideológica do neo-realismo do Novo Cancioneiro. Fuga ao realismo ou evasão do mundo? Não, o mundo olhado na sua dupla dimensão real e espiritual ou transtemporal. Não uma fuga à vida, mas uma vida mais interiorizada. Os três poemas finais de Fuga – "Salmo", "Cântico", " Resgate" – apontam para essa direcção transcendente, que as duas colectâneas seguintes vão aprofundar.
O Fértil Jardim tem a chancela da Távola Redonda, a revista que, com maior rigor estético e menor intuito confessional que a "Poesia Nova", se negava tanto ao desleixo formal como à veemência panfletária. Secretário dessa revista, Fernando de Paços participava da mesma oficina artística dos poetas mais representativos dela – António Manuel Couto Viana, David Mourão-Ferreira e Luiz de Macedo. Veja-se este poema tão exemplar da consumada arte de um poeta da família musical de Camilo Pessanha: "Que bom era exprimi-la / mas só posso sonhá-la! / Como era bom levá-la, / como era bom! – Tranquila… // Como era bom despi-la / ao poder encontrá-la! / Já não sorri. Não fala… / Da carne separá-la, / como era bom despi-la! // Acordá-la e despi-la, / (do seu corpo despi-la!) / mas a alma, que é sua, / que bom era levá-la / (para longe levá-la!) / para bebê-la, nua. / – Já não respira… Estua. / – Já não responde… Cala." Não será de aproximar este poema do soneto "Estátua" de Pessanha?
Dez anos, mais dez anos teriam de passar para que Fernando de Paços se decidisse a reunir novos poemas seus na colectânea O Segundo Dilúvio (1963), desta vez com a chancela da Verbo, a que ele deu, durante décadas e como director editorial, o melhor do seu zelo, competência e gosto gráfico. Punha nos livros dos outros o mesmo cuidado que dava aos seus poemas. N’O Segundo Dilúvio acentua-se o pendor religioso, místico até, do autor, que não cede a um exterior folclorismo devoto. Aqui, embora a palavra "dilúvio" evoque a ameaça apocalíptica do Génesis, há todo um clima puramente angélico e a esperança que antevê a "cidade tranquila", a "cidade nova" que prefigura a Jerusalém celeste. É a nova Terra, é o novo Céu, depois da "grande tribulação", na linguagem bíblica.
Muitas águas correram entretanto debaixo das pontes e parecia definitivo o silêncio literário de Fernando de Paços, quando, muito instado, acedeu a organizar novo livro, só em 1995 vindo a lume: A Jangada Aérea. Há pessoas assim, que parece terem feito voto de silêncio longe do ruído e da vaidade do mundo. Fernando de Paços atravessou silencioso o mundo, e dele foi ignorado, como certamente ambicionava. A ele, pois, se aplicam os versos de Dante: "E se il mondo sapesse il cor ch’egli ebbe […] Assai lo loda e più lo loderebe." E n’A Jangada Aérea se projecta, de novo, a luminosa sombra de Camilo Pessanha, neste poema: "Estátua de alabastro, mutilei-a. / Dividi-a em pedaços, escondi-a / Na sombra do jardim oculta ao dia / E sob areia fria sepultei-a. // Chorei depois a morte hórrida e feia, / E por muito mais tempo choraria, / Se não visse, na aurora que nascia, / Recompor-se e elevar-se a estátua inteira. // Mas ante a maravilha que me espanta, / Que me detém e logo me perturba, / Enquanto um fio d’água remurmura / E o peito alabastrino expira e canta, // De novo ataco aquele que perdura / E a cada nova morte se levanta / Mais alta, mais notável e mais pura."
Se a sua Obra Poética não ocupa mais de centena e meia de páginas, os seus escritos em prosa poucas dezenas ocupariam. Mesmo na Enciclopédia Verbo, naturalmente aberta à sua colaboração, não escreveu mais de três verbetes, dois deles sobre um tema que lhe era caro: o teatro de fantoches.
A sua vocação não era a de publicista – era, no mundo, a de monge contemplativo.

João Bigotte Chorão
(excerto adaptado de um texto publicado em ANNUALIA 2006-2007)

publicado por annualia às 10:39
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